Faz um século que não escrevo aqui!
Peço humildes desculpas a quem ficou esperando (houve?) mas equilibrar mestrado e trabalho é uma tarefa muito mais complexa do que eu pensava que seria.
Em função disso, trago hoje um texto giganórmico e porradeiro, com algumas verdades e ressalvas necessárias pra dizer sobre os últimos meses do Botafogo nas diferentes competições que participou e participa, além da situação do clube como um todo.
Comecemos, claro, pela performance do futebol antes de qualquer outra coisa. Como cantado há alguns meses por aqui, Zé Ricardo foi demitido depois de muito forçar pra que acontecesse. Sua teimosia e total incapacidade de motivar a equipe resultaram numa trágica e vergonhosa - porém não inesperada - eliminação contra o Juventude.
No olho do furacão, Barroca, o exímio técnico que guiou a categoria de base em 2016 ao título brasileiro, finalmente veio assumir o lugar que muitos da torcida acreditavam há anos que lhe fosse cativo.
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| Barroca: Energia, simplicidade e senso crítico o destacam na comparação com os técnicos anteriores. Faz o que pode com um elenco enxuto e fraco, mas já convive com contestações (razoáveis) a algumas decisões de jogo. Dá a cara à tapa e mostra que pode sim ser vencedor pelo profissional do clube. Foto: Jornal Atual. |
Barroca possuiu algumas diferenças em relação a média dos treinadores que têm passado pelo Botafogo (e até pelo futebol brasileiro como um todo). Acredita fielmente na filosofia do tiki-taka (algo do que eu discordo um pouco, embora haja grande potencial de uso do esquema no Brasil, sobretudo na base), o que significa que pro Barroca não adianta ganhar, tem que convencer. Suas entrevistas reforçam isso. "Vencer jogando um futebol bonito, que chame a torcida e dê orgulho de ver".
Destaco a segunda parte, aproveitando o gancho. Barroca entende - como POUCOS - a responsabilidade que o clube e o elenco do Botafogo têm com sua torcida. Diferente da mídia - que não apenas ajudou a menosprezar o Glorioso no imaginário popular (mágoa de Garrincha é forte) como ainda volta e meia faz questão de tentar culpar a torcida pelos fracassos do clube (no caso mais recente, um comentarista bem clubista atacou diretamente a torcida após o clássico contra o Flamengo; onde a diretoria rubro-negra MENTIU sobre a disponibilidade de ingressos, mencionando esgotamento na sexta e reabrindo a venda no domingo na hora do jogo, com aval e cumplicidade da PM) - e dos treinadores conformistas que têm passado por aqui, Barroca entende que o torcedor botafoguense já sofre demais na mão de uma diretoria bagunceira e inoperante, que contrata jogadores medíocres e só se endivida mais.
Não há incentivo para o torcedor alvinegro frequentar o estádio além da paixão, e ainda na base da paixão a torcida vai e mantém o apoio! Ingressos caros, time ruim, diretoria estúpida, e estamos lá. Reconhecer que somos os últimos culpados (ainda que sim, exista uma parcela grande de Sofáfogo e gente oba oba da Libertadores) é talvez o principal mérito de Barroca. Sabe se comunicar com a torcida e sabe passar esse senso para os jogadores, que compraram o discurso e têm evitado discursos comodistas. Além disso, ter uma filosofia de jogo bem definida é algo que falta em muitos medalhões brasileiros. Barroca diz: "Imagina que você entra numa briga e cada um tem um tempo pra usar um porrete (...) eu vou querer usar o porrete o máximo de tempo que der. O cara pode me acertar no queixo uma vez e me arrebentar ali, sim, mas a chance de eu derrubar ele é maior (...) a bola pra mim é um porrete". A analogia, embora simples, é direta e divertidamente genial, do tipo que um jogador gosta de escutar e assimila rápido.
Por outro lado, Barroca também tem similaridades com os técnicos típicos que aqui passam, leia-se, teimosia. Vá lá, façamos o desconto de que o elenco é definitivamente enxuto e muito limitado em termos técnicos. Ainda assim, a insistência em determinadas peças não têm se justificado. Barroca tem escalado Alex Santana constantemente fora de posição, com Cícero - jogador fundamental, mas que não têm condições de jogar 90 min, portanto deveria ser banco - e João Paulo, fracos na marcação e lentos na transição, titulares e ocupando o mesmo espaço do campo. Embora a proposta de fato seja ter mais a bola e evitar assim os ataques adversários, isso não isenta o time de ter velocidade para retomar bolas perdidas - e portanto, ter jogadores que saibam morder - e puxar contra-ataques nessas ocasiões. O resultado é um time que até sabe criar, mas que têm dificuldade pra aproveitar as oportunidades pois chega com poucos homens ao ataque - o meio não acompanha a jogada em velocidade - e que sofre muito na recomposição, algo que fica escancarado com as bolas perdidas na defesa (que decidiram, inclusive, MUITOS dos jogos em que o Botafogo saiu derrotado).
Não somente, Barroca também não é lá um milagreiro: apesar de ter conseguido fazer Cícero, Marcinho e Gilson voltarem a render minimamente, bastou os salários atrasarem mais um pouco para que perdesse o brio do elenco em algumas partidas. Não é culpa dele nem dos jogadores, que têm o direito de não se sentirem motivados ante a inoperância da diretoria. Mas talvez a pouca bagagem no profissional faça com que, apesar de ser capaz de motivar, Barroca ainda não tenha encontrado o tiro certo pra botar sangue nos olhos de veteranos encostados do mundo da bola.
Em termos de resultados, a pausa pra Copa América foi ingrata com o Botafogo, entregando a perda de Erik (eu odeio o Palmeiras e o mundo precisa que esse clube seja destruído) e uma queda de rendimento bizarra. O time que vinha de bons resultados (7 vitórias em 11 jogos, sem mencionar que a derrota para o Palmeiras foi no roubo) teve um empate contra o Cruzeiro e agora 4 derrotas seguidas (ok, temos que destacar que contra o Flamengo fomos CLARAMENTE garfados pela arbitragem e ainda fizemos um ótimo jogo, e contra o Atlético-MG, na Sula, massacramos o 1º tempo da volta mas perdemos de bobeira). Aliás, fica o parêntese, o Botafogo foi o termômetro claro pra indicar que o VAR escolhe lado no Brasil (claro, o lado dos endinheirados). Em termos de bola, mesmo, o time alvinegro oscila. Fisicamente e tecnicamente. Mas Barroca de fato deu alguma filosofia ao elenco. Resta saber se, com possíveis contratações (Blandi e Aimar, se a diretoria não tiver cagado no pau de novo) e alguma aprendizagem de Barroca (que precisa voltar a escalar Bochecha, Jean e Valencia, que pedem passagem nesse time titular fraco), isso será suficiente para sobrevivermos até o final da temporada. Os números não são ruins (ao menos não tanto quanto se esperava de tal elenco), e ficou claro que o time consegue fazer frente mesmo aos melhores elencos do Brasil.
| Elenco combalido, mas capaz de fazer frente aos milionários: saída de Erick joga sobre o resto do elenco a necessidade de se fechar mais ainda em prol do clube e eventualmente ver a recompensa disso no ano que vem. Partida da volta contra o Atlético-MG e o clássico garfado contra o Flamengo provam que é possível. Foto: Vitor Silva/Botafogo. Fonte: FogaoNet. |
Nesse sentido, com a eliminação precoce na Copa do Brasil e uma eliminação evitável na Sulamericana, o ano do Botafogo praticamente se encerrou (supondo que mantenhamos o ritmo oscilatório e isso seja suficiente pra não termos que evitar um Z4). Contudo, talvez seja o encerramento mais agridoce possível: sem títulos, com o medo de evitar uma série B, mas com uma notícia que joga esperança no coração (da maioria, ao menos) dos alvinegros - a aprovação do projeto dos Moreira Salles.
Vou pontuar sobre esse projeto, em prós e contras. Pra quem não sabe, é preciso primeiramente detalhar melhor o que é que vai acontecer, de fato:
- O projeto foi encomendado pelos Moreira Salles, mas não será encabeçado somente pelos mesmos. A ideia é que investidores se reúnam e decidam pelas quantias necessárias, tornando-se acionistas conjuntos. É possível, não garantido, que os Salles sejam majoritários. Novamente, não há nada que garanta, é apenas um indicativo;
- O projeto é criar uma empresa/entidade, estilo Botafogo S.A. Essa empresa passaria a ter controle sobre todos os ativos do FUTEBOL do Botafogo. Jogadores, contratos, receitas do uso do Nilton Santos, renda do sócio-torcedor, entre outros. Em contrapartida, ela arcaria com a dívida do clube (total ou parcialmente);
- O clube manteria o controle e gestão sobre os outros esportes olímpicos e sede. Entretanto, os sócios e sócios-proprietários perdem bastante em termos de poder de decisão junto ao futebol (se é que não perdem completamente esse poder);
- Se não me engano, o contrato duraria uns 30 anos. Após isso, todas as posses do futebol voltariam ao Botafogo, incluindo receitas e eventual resto de dívida. A proposta inicial é derrubar a dívida dos 700 para os 300 milhões. Sem mencionar orçamento para investimento anual no time na casa de 30 milhões ano (algo que banca BONS salários em um número razoável...podemos esperar uma melhoria franca da equipe).
Agora, sim, vamos passar aos prós e contras que vêm por essa questão. Alguns já foram aventados, mas eu vou detalhar melhor.
Prós:
- O desafogo completo do clube em curtíssimo prazo, algo que seria impensável em outras soluções. Mais que somente sair do vermelho, o Botafogo seria impedido de piorar a situação, ao ser acompanhado por um comitê de transição que injetaria algum dinheiro para garantir a mudança no estatuto do clube e a reestruturação, bem como a atualização de documentos frente à CBF e outras entidades organizadoras dos torneios, em prazo adequado.
- Em função de 1, será possível montar times DIGNOS de vestir a Estrela Solitária e eventualmente disputar títulos grandes.
- Em função de 1 e 2, JÁ SE NOTA UM EFEITO ATRATIVO NO SÓCIO-TORCEDOR. Embora a torcida seja fiel, é notável que parte dos alvinegros seja muito oba-oba. Boas notícias tendem a trazer os torcedores, que gastam mais com o clube. E esse gasto é o que atrai os investidores.
- A possível recolocação do Botafogo no seu devido lugar de gigante no futebol brasileiro e sulamericano. Não apenas pela maior possibilidade de disputar títulos, mas por um lado perverso (porém real) da bola: mais endinheirado, o alvinegro terá poder de fogo pra responder os setores de mídia que o perseguem - banindo, assim, os clubistas ou magoados que insistem em apequená-lo ou atacá-lo - mas principalmente fazer frente aos complôs dos queridinhos da CBF e Conmenbol.
- A profissionalização da gestão do futebol implicaria, possivelmente, em maior transparência, em função do retorno necessário para os investidores e outros stakeholders envolvidos no negócio.
Contras:
- Vale estudar a questão, mas é possível que ao final da história o Botafogo ainda tenha lá o seu potencial de dívidas, que podem não ser sanáveis sem o devido angariamento de receitas. É extremamente importante que o projeto gere receitas para o futuro do Botafogo, não apenas para cobrir o investimento feito e dar lucro aos acionistas.
- Seguindo na linha de 1, é ainda mais importante que os acionistas tenham em mente que a gestão dos ativos do clube não se dá apenas por questões financeiras. Um dos ativos mais importantes são os jogadores, e se não houver um grupo especializado no tratamento desse ativo, é possível que continuemos a assistir pratas da base e craques do time sendo vendidos ou a preço de banana ou em momentos completamente inoportunos, quebrando o rendimento do time e a possibilidade de valorização futura. Não somente, passes e salários altos não implicam em futebol de qualidade. O Botafogo não pode cair na armadilha de gastar muito só porque passou a ter, e acabar adquirindo os refugos da Europa e os medalhões da aposentadoria.
- A torcida será definitivamente afastada da gestão do futebol. Isso quer dizer que o poder de contestação frente a decisões da diretoria diminuirá drasticamente. Além disso, protestos e cobranças enérgicas podem vir a ser criminalizados. Há um lado positivo nisso: bandidos, fascistas e politiqueiros envolvidos nas organizadas seriam completamente excluídos, desestimulando o envolvimento desses tipos na torcida. Porém, isso coloca uma mordaça no resto da torcida também.
- Seguindo por 3, se demonstrada ingerência ou má-fé do grupo gestor, não haverá meios da torcida retomar o controle do clube. Pior: eventuais más fases futebolísticas podem culminar em desvalorização de ativos e perda de receitas, fazendo com que alguns investidores vendam suas cotas e pulem fora, ajudando a afundar o barco.
- Em função de 4, ficamos extremamente vulneráveis na mão do grupo gestor. No Bahia, houve um processo forte de democratização do clube. Mais que uma utopia de gestão coletiva, isso resultou no reerguimento do clube, que vem ano após ano melhorando o patamar da estrutura, do elenco e de seu projeto. Esse tipo de modelo era muito mais interessante para o Botafogo no longo prazo, mas em função da situação catastrófica atual, ficou inviável de se propor (embora, honestamente, eu tenho certeza que seria um fracasso no cenário atual não pelo dinheiro em si, mas pela quantidade absurda de fascistas e retardados mentais dentro dos setores proeminentes do Botafogo). O problema é que ao enveredarmos pelo clube-empresa, dificilmente teremos a opção da democratização próxima.
Bem, como exposto, há uma série de grandes prós e de contras problemáticos. Mais detalhes podem ser vistos em:
Diante disso tudo, eu entendo da seguinte forma: não há opção de curto prazo mais viável que aceitar o projeto, como foi aceito. Entretanto, cabe ao clube se resguardar em estatuto e na composição do comitê gestor de transição, para garantir o respeito à instituição e principalmente ao seu torcedor. E tudo isso com a devida transparência.
Até que tudo se concretize (crê-se que em 2020), temos que fazer o que nos for possível para seguir apoiando o Glorioso e garantir um resto de temporada minimamente tranquilo (ou pelo menos, não vexatório). Foi um ano, até aqui, de decepções ingratas e amadorismo galopante. Que isso seja o fim da tempestade, de uma vez por todas.
Saudações alvinegras!

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