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segunda-feira, 27 de julho de 2020

Marcelo, um futuro camisa 10?

De um ano para cá tem se debatido nas mesas redondas o fato de que o lateral esquerdo do Real Madrid, o brasileiro Marcelo, tem piorado o seu rendimento. Tá certo que nos últimos meses o camisa 12 voltou a ter boas atuações na equipe de Zinedine Zidane, mas ainda abaixo daquilo que sabemos que ele já rendeu e pode render — lembrando que no início da temporada 19/20 ele perdeu a posição para o jovem Sergio Reguillón, hoje no Sevilla.

Pois bem. Tendo em vista que Marcelo não é mais um garotinho (tem 32 anos), é natural imaginar que a parte física comece a pesar um pouco nos próximos anos, tanto no quesito velocidade quanto no quesito resistência. Não é a maioria, mas alguns já começam a cogitar a possibilidade dele procurar uma nova equipe para jogar e outros vão além, acreditam que Marcelo deveria jogar no meio de campo, mais especificamente como um camisa 10 — sobretudo botafoguenses animados com as recentes declarações do lateral afirmando que gostaria de encerrar a carreira no alvinegro. Essa sugestão dele virar meia me chamou a atenção e parei pra pensar: será que seria uma boa?

Para alguns, a boa técnica e a visão de jogo o credenciam para ser um futuro camisa 10. Será? (Foto: Divulgação/Real Madrid)


Ao longo da carreira, Marcelo se notabilizou por ser um jogador agudo, que participava bastante das jogadas ofensivas da equipe. Era um lateral que ia até a linha de fundo com muita facilidade e com o tempo ocupou a titularidade do clube merengue sem muita concorrência — é verdade que José Mourinho chegou a optar por Fábio Coentrão, mas se considerarmos todo o período do brasileiro com a camisa do Real, ele foi soberano. 

A técnica do Marcelo é indiscutível e conforme os anos se passavam, o lateral aos poucos começava a ocupar mais as faixas centrais do campo. O momento em que isso ficou mais visível foi na final da Champions League da temporada 13/14, quando entrou no segundo tempo da partida e jogou de que? De meia. Ele não só atuou muito bem como fez um dos gols da vitória por 4x1 na prorrogação. Mas não era só jogando no meio que Marcelo ocupou faixas centrais. Na lateral ele chegou a ter momentos em que funcionava como um lateral interior. Rafael e Edu, do canal Futirinhas no YouTube, chegaram a assistir o El Clássico em uma viagem que fizeram pra Espanha e concluíram: "o Marcelo é um camisa 10 na lateral". O que eles quiseram dizer com isso? Marcelo, mesmo jogando na lateral esquerda, sempre buscava o jogo pelo meio e funcionava como um dos armadores da equipe.

Vimos algo bem semelhante na Copa América de 2019, no Brasil. A semifinal Brasil x Argentina tivemos Daniel Alves fazendo exatamente a mesma função pela direita. Praticamente toda jogada ofensiva tinha que passar pelos pés dele. Também vimos isso em alguns dos melhores momentos do Flamengo de Jorge Jesus em 2019, com Filipe Luís fechando a linha do meio campo pela esquerda. E por falar em Flamengo, que tal o maestro Júnior? Ele foi o maior exemplo de lateral que atuava no meio de campo. Já ouvi até dizerem que o Júnior nunca foi lateral, sempre foi meia.

Como seria um suposto Real Madrid com Marcelo atuando como um 10 (não leve as escalações tão a sério, o importante é visualizar o posicionamento do Marcelo em campo)

Beleza. Mas e se o Marcelo fosse realmente deslocado pro meio de campo, jogando como um camisa 10? 

Vamos lá. As pessoas tendem a achar que o "camisa 10 clássico" é o jogador que fica sempre centralizado e só distribui o jogo. Como dizem: "ele não corre. Ele que faz a bola correr". Geralmente essa imagem é associada ao Ganso no auge. Pois bem. Sinto informar que esse nunca foi o camisa 10 clássico. O camisa 10 era o jogador do meio campo que, sim, armava o jogo, mas também buscava a finalização o tempo todo. Ele não ficava fixo, centralizado o tempo todo esperando a bola chegar. O camisa 10 sempre buscou o jogo e quando recebia a bola, ele carregava até a área. Se visse um companheiro em boas condições, ele passava. Se visse o espaço pra finalização, ele chutava. Muitos camisas 10 na história chegaram a ser os artilheiros do time, mais até que os centroavantes. Quer um exemplo? Zico. O galinho talvez seja o melhor exemplo de camisa 10, ao lado de Pelé (que muitas vezes foi confundido como centroavante por majoritariamente jogar no ataque. Zico era mais meia). Ele teve muitas assistências na carreira, mas fez gol PRA CARALHO.

Como já foi dito, o Marcelo tem uma técnica indiscutível. Ele faz uma leitura muito boa do jogo, tem um ótimo senso de posicionamento e o passe dele é ótimo. No entanto, tem uma característica que pode descredenciar muito o Marcelo pra jogar como um camisa 10: a falta do faro de gol. Em uma comparação rápida com outro lateral esquerdo, Roberto Carlos, podemos notar que gols nunca foram a onda do Marcelo. Roberto Carlos marcou 128 gols na carreira (68 só no Real Madrid), enquanto Marcelo contabiliza até o momento 44 gols. Além disso, não enxergo no Marcelo tanto essa característica de pegar a bola e sair em arrancada em direção ao gol — embora tenha feito um gol assim na já citada final da Champions de 13/14, acho que o perfil dele não é esse.

Em uma linha de quatro, o camisa 12 seria um construtor de jogo pela esquerda


E como eu enxergo o Marcelo?

Eu vejo o camisa 12 do Real podendo fazer duas funções no meio campo: uma como meio campista à esquerda (não chega a ser um ponta) em uma linha de quatro e outra como um terceiro homem de meio campo num meio em formato de losango (ou diamante, como preferir). Marcelo pode usar a visão de jogo e o bom senso de posicionamento para armar o jogo de trás, ou pelo lado esquerdo. Mal comparando, poderia desempenhar um papel semelhante ao que o Giggs e o Beckham faziam, até mesmo o Felipe (que começou como lateral no Vasco e aos poucos foi se mudando pro meio). Claro, jogando no meio o Marcelo fica mais próximo do gol e tem a possibilidade de melhorar a sua estatística. Mas pela própria característica do jogador, eu o enxergo mais como um jogador de construção de jogadas.

Em vez de um "camisa 10", Marcelo seria um excelente "camisa 8". No entanto, há alguns pontos a serem destacados. Como dito bem no começo do texto, a questão física pode se tornar um problema para ele daqui há alguns anos. Além disso, Marcelo nunca se destacou tanto pela capacidade defensiva. Se juntarmos as duas coisas, podemos prever que ele será um jogador que vai deixar alguns espaços. Então, pra ele funcionar teria que ser um esquema que tenha um jogador que faça muito bem a sua cobertura, ou que ele próprio não tenha muitos avanços para não comprometer defensivamente. 

Marcelo seria o vértice esquerdo de um meio campo em forma de losango

Agora, resta saber uma coisinha: o Marcelo quer jogar de meia? Se a resposta dele for sim, acho que esse caminho apresentado seria interessante. Mas se ele não se vê fazendo isso — ao contrário do Daniel Alves, que pediu pra jogar de meia no São Paulo —, é hora do Marcelo começar a se readaptar taticamente, antes que o físico comece a pesar contra. De qualquer maneira, é um baita jogador e que ainda tem lenha pra queimar. E eu, como botafoguense, espero que queime essa lenha no alvinegro rs.

segunda-feira, 20 de julho de 2020

A herança do Mister ao Flamengo

É, o "Mister" Jorge Jesus pirulitou-se para o Benfica. Apesar de não ter sido uma saída muito legal, com pouca transparência do técnico português, é inegável que ele deixou bons frutos ao elenco rubro-negro. O time, que teve um primeiro semestre de muita desconfiança sob o comando de Abel Braga, foi ajeitado, encorpado e de fato se tornou a melhor equipe do Brasil. Apesar da saída de Jorge Jesus neste mês de julho, o Mister deixou um trabalho muito bem encaminhado para o futuro técnico. Mas o que exatamente fica de herança para o novo comandante do elenco campeão da América?

Independente de quem vá assumir o comando técnico do Flamengo, ele de cara terá ótimas peças a disposição. Gabigol, Bruno Henrique, Éverton Ribeiro, De Arrascaeta, Gérson... Uma infinidade de bons jogadores. E mesmo que eventualmente algum desses jogadores seja vendido, hoje o Flamengo conta com um poderio financeiro capaz de repor essas peças à altura. Além disso, o time já tem um padrão tático e uma filosofia de jogo muito eficientes para competir em nível nacional e internacional. Ou seja, se o novo técnico só manter o que já existe, ou fazer pequenos ajustes, a chance de sucesso ainda é bem alta.

Jorge Jesus deixou o terreno preparado para o próximo treinador do Flamengo (Foto: Getty Images)

Hoje o Flamengo joga numa espécie de híbrido de 4-1-3-2 (esquema favorito de Jorge Jesus) com um 4-2-3-1. É um time que ofensivamente é muito fluido.  Com a bola em posse no ataque, é muita movimentação e troca de passes pra tentar invadir a área adversária com o máximo de gente possível. E quando a bola está no campo de defesa no pé dos zagueiros, pode esperar que a bola longa vem aí. 

Mas não é só ofensivamente que o Flamengo brilha. Defensivamente, a equipe é muito compacta e aposta na chamada "pressão pós perda", em que o time tenta recuperar a posse de bola muito rapidamente ainda no campo de ataque. Essa soma de fatores é um rolo compressor nas defesas adversárias, que não restam muita opção que não seja a bola longa –que acaba virando um chutão, pois como a linha defensiva rubro-negra é alta e bem próxima ao meio campo, a bola na maioria das vezes não chega em ninguém.

Algumas peças são fundamentais para que esse esquema funcione em sua plenitude. Começando pela defesa, temos Rafinha e Filipe Luís com papeis importantíssimos na transição ofensiva. No Flamengo, Rafinha é mais que o entregador de Gatorade (rs). Ele é responsável pela amplitude e pela profundidade pelo lado direito. Ele aproveita que Éverton Ribeiro tem a tendência a cortar para o meio e explora todo o corredor pela direita, buscando as jogadas de linha de fundo. Já Filipe Luís tem uma "função dupla". Ora faz a ultrapassagem pelo lado esquerdo, ora fecha a linha de meio campo como um terceiro homem de meio campo – o chamado "lateral interior"

Gérson é o jogador mais dinâmico do meio campo do Flamengo (Foto: Divulgação)

No meio, Gérson é extremamente exaltado pelo dinamismo que dá à equipe. Ele funciona basicamente como um organizador móvel, que procura o espaço vazio para criar e com isso ocupa várias faixas do campo. Mas isso só é possível porque a linha defensiva está adiantada e Willian Arão (tá mal?) garante os eventuais avanços de Gérson. O volante, que se notabilizou pela função de ser um box-to-box e era presença constante na área adversária, deu um passo para trás e entendeu o que Jorge Jesus queria dele: um primeiro volante para fazer a saída de bola com muita qualidade. Arão tem um bom passe e sabe sair para o jogo quando necessário. Apesar de não tem um poder de marcação tão forte – vide alguns lances em que ficou só olhando o adversário passar –, o volante aprendeu a se posicionar bem e garante uma segurança defensiva junto a zaga.

O esquema funciona tão bem que Éverton Ribeiro e De Arrascaeta funcionam quase como "coadjuvantes de luxo". O primeiro tem uma função de construção de jogo pelo lado esquerdo, mas com o movimento constante de receber na ponta e ir para o meio. O uruguaio tem um papel um pouco diferente, em que atua centralizado, mas com momentos que abre para a esquerda e momentos que entra na área para finalizar. No Football Manager, ele pode ser tratado com o um "Atacante Sombra"

Mas Éverton Ribeiro e De Arrascaeta só são tratados como coadjuvantes por causa de dois nomes: Bruno Henrique e Gabigol. A dupla de ataque avassaladora no ano. Ambos foram responsáveis por mais de 50% dos gols do Flamengo em 2019 (78 dos 153 gols na temporada). E o que mais chamou a atenção nesse time foi o posicionamento dos dois em campo.

Na teoria, Gabigol é o 9 e Bruno Henrique o ponta esquerda. Na prática, nada disso era real. Gabigol constantemente foi visto saindo da área, por vezes até indo para a ponta direita para que Arrascaeta ou Bruno Henrique entrassem na área. Sim, o Bruno Henrique diversas vezes fazia o movimento da ponta para a área. Houve momentos até que Bruno Henrique foi o centroavante do time. Era um posicionamento muito livre dos dois, mas que sempre buscavam o gol. E os dois foram mortais nisso.

Dupla de ataque rubro-negra é mortal e os adversários sabem disso (Foto: Divulgação)

Além dos titulares, hoje o Flamengo conta com um banco de respeito. O próximo técnico rubro-negro tem peças variadas para escolher. Alguns desses merecem destaque.

É o caso de Michael, a grande revelação do último campeonato brasileiro. O ponta esquerda habilidoso tem um comportamento em campo um pouco diferente de Bruno Henrique. Ele atua bem aberto buscando o drible ou o passe. Embora faça seus golzinhos, não oferece o mesmo poder de finalização. Pode ser uma peça importante na temporada caso o treinador opte por ter mais velocidade e amplitude pelo lado esquerdo. Pedro Rocha atua pela direita e busca a linha de fundo. No entanto, tem mais poder de finalização que Michael, o que garante mais uma opção de jogo. 

Vitinho é quase que um "décimo segundo jogador". Entra com frequência no segundo tempo e tem algumas características importantes de analisar. Diferentemente do que fazia no Botafogo e no Internacional, pelo Flamengo o jogador tem um comportamento de receber na ponta esquerda e cortar pro meio para finalizar de média distância. Raramente vai à linha de fundo, como no Botafogo, e não tem pisado tanto na área, como no Inter. Independente de ser bem visto ou não pela torcida, é sempre bom ter no elenco um jogador que gosta de chutar de longe.

Outra opção interessante no banco é Diego. Apesar de ser hoje contestado, o meia tem uma característica de cadenciar o jogo, de vir buscar a bola no círculo central e tentar o lançamento para o ataque – vimos na final contra o River Plate, ainda que tenha sido um ato de desespero. Sempre é uma carta na manga ter no time um jogador que ponha a bola e tente controlar o jogo. 

E por último, mas não menos importante: Pedro. O legítimo camisa 9 que Jorge Jesus tanto pediu em 2019 chegou no ano seguinte. Apesar de o ataque do Flamengo ter por característica não ter um 9 fixo, todo grande time precisa de um jogador de referência para uma eventual necessidade. Até mesmo o Guardiola, que popularizou o tiki-taka, fez uso de um 9 em momentos de desespero – basta lembrar das inúmeras vezes em que deslocou Piqué para o ataque na esperança de marcar um gol nos últimos minutos de um mata-mata de Champions League. Pedro faz com excelência a função de centroavante e isso possibilita inúmeras variações táticas para o Flamengo, que pode jogar com ele os 90 minutos, ou usar ele no decorrer da partida. Talvez seja de todos o reserva mais importante do time.

Time base do Flamengo é recheado de opções

Apesar de tanta riqueza de peças, hoje o Flamengo apresenta alguns pontos fracos que precisam ser corrigidos pelo novo comandante. O primeiro deles é a falta de opções na reserva para o Rafinha. João Lucas não correspondeu quando foi exigido e o jovem Matheus França ainda não tem a experiência que hoje o time exige. Numa eventual lesão ou suspensão do titular, o Flamengo sofre um baque.

A reserva da outra lateral pode também ser considerada um ponto fraco, de certa forma. Ainda que Renê não comprometa o time taticamente, ele entrega muito menos apoio ofensivo e criativo do que Filipe Luís. Então, pode haver momentos do jogo em que não vai haver ninguém ocupando o corredor esquerdo, enquanto o meio e a direita são preenchidos, provocando desequilíbrio no time. 

Contratados como opção para a saída de Pablo Marí, os zagueiros Gustavo Henrique e Léo Pereira ainda não se adaptaram completamente ao esquema. Como são bons zagueiros, é provável que com o tempo isso seja resolvido. O problema é que se isso demorar demais, os adversários podem aproveitar...

Outro ponto negativo é o Gérson. Ele, que funciona como o termômetro do time, por diversas vezes teve atuações apagadíssimas em partidas importantes. Em jogos de maior peso, foi muito discreto e não deu o dinamismo que é necessário à equipe. O mesmo pode ser dito de Willian Arão, que em certos jogos não só foi discreto como foi muito mal. Seria a hora de pensar em escalar o Thiago Maia nessas partidas? Veremos.

Vale destacar também que aos poucos as equipes estão entendendo como travar o Flamengo. Equipes como Santos, Botafogo, Vasco, Fluminense, River e até mesmo a Portuguesa-RJ causaram problemas aos rubro-negros. E muito disso foi combatendo fogo com fogo. Todos esses times se fecharam em linhas compactas, assim como o Flamengo faz, e alguns deles apostaram na pressão na saída de bola dos zagueiros, com o objetivo de pegar a defesa de calça arreada e fazer o gol. 

O Flamengo teve dificuldades para furar o bloqueio e segurar as saídas rápidas da Portuguesa-RJ (Foto: Reprodução/Marcelo Cortes/Flamengo)

O Liverpool, na final do Mundial de Clubes, adotou outra estratégia. Os "ingleses" escolheram manter a posse de bola na defesa, esperando a pressão rubro-negra para apostar na bola longa. Desta vez funcionou porque o Liverpool sabe jogar desse jeito e armou o time pensando nisso, diferente da maioria dos times brasileiros. Dessa forma, desgastaram fisicamente os comandados de Jorge Jesus e se aproveitaram disso para exercer a sua estratégia.

Enfim! Seja quem for o novo técnico do Flamengo, é importante que tenha o entendimento do jeito que a equipe jogue e faça essas correções. Dessa forma, é fundamental que a diretoria rubro-negra procure alguém que seja adepto da mesma filosofia de jogo proposta por Jorge Jesus, mas que também tenha força para comandar um elenco estrelado. Os caminhos apontam para um técnico estrangeiro, mais precisamente, português. Se o Flamengo deseja repetir o sucesso do ano passado, não basta o novo treinador receber a herança, ele tem que falar a mesma língua do "Mister".

segunda-feira, 13 de julho de 2020

O que seria o meu Botafogo ideal?

Bem, como já foi dito no texto de inauguração desta coluna MARAVILHOSA, eu gosto muito de futebol. Mas acima de tudo, sou botafoguense. Então, nada mais justo que fazer meu primeiro texto de fato falando sobre Botafogo. Mais que isso, falando sobre o Botafogo que eu gostaria de ver.

Recentemente estava navegando pelo Facebook e me deparei com o grupo Resenha Alvinegra, um grupo que faço parte em que reúne uma porção de botafoguenses para conversarem sobre qualquer coisa relativa à Botafogo. Lá tem tudo quanto é tipo de botafoguense: o que reclama de tudo, o que acredita em qualquer coisa que publicam, o sensato, o chato, o velho, o novo... é um verdadeiro zoológico! Mas uma coisa me chamou muito a atenção nesse grupo. Após o empate contra o Fluminense que culminou na eliminação do Botafogo do Campeonato Carioca, muitos começaram a postar escalações que gostariam que o técnico Paulo Autuori fizesse. E o mais impressionante disso tudo é que NENHUMA dessas escalações fazia algum sentido. As pessoas simplesmente escalavam os jogadores favoritos de qualquer jeito só pra colocá-los em campo.

Vendo isso, tive a ideia de eu mesmo fazer um post explicativo no grupo sobre como eu enxergo o Botafogo, com base nas ideias do próprio Autuori, e agora estou trazendo o conteúdo com mais comentários para cá. Então vamos lá!

OBS: o post foi feito no dia 7 de julho, época em que saíram notícias de um interesse em Victor Luís, Bruno Forster e Luiz Antônio, e o Kalou ainda não havia sido confirmado. Levem isso em consideração ao ver as imagens.

Esquema base seria um 3-5-2 bem semelhante ao desenho tático da Seleção Brasileira de 2002


O Botafogo reestreou no Campeonato Carioca (vulgo Covidão 2020) contra a Cabofriense usando uma espécie de 3-5-2. O técnico Paulo Autuori e o auxiliar Renê Weber escalaram um time com base na condição física dos jogadores, mas já apresentaram algumas soluções interessantes que podem ser exploradas ao longo da temporada. Vale destacar que antes mesmo de o Botafogo usar esse esquema eu já comentava entre amigos que seria uma boa ideia o Botafogo jogar com 3 zagueiros, especialmente com o Cícero fazendo uma função de líbero.

Já que falei nele, vamos começar pelo Cícero! Ele é um jogador muito técnico, com uma visão de jogo muito interessante, passe bom, chute bom e até um bom cabeceio, apesar de ser baixinho. No entanto, conforme foi ficando mais velho, Cícero foi perdendo velocidade e isso começou a comprometer as atuações dele. Ele cada vez mais foi recuando de posição, até chegar à zaga. Cícero estreou na zaga pela primeira vez em 2019, numa partida válida pela Copa Sulamericana contra o Atlético-MG. Na ocasião, o Botafogo havia perdido Joel Carli por suspensão, Gabriel por cláusula de empréstimo (não podia enfrentar o Galo), e havia vendido/emprestado os outros três zagueiros que tinha registrado na competição. Sobrou pro Ciço para atuar ao lado de Marcelo Benevenuto (que havia falhado no jogo de ida). Mas ao contrário do que era imaginado, Cícero jogou muito bem e foi um dos melhores em campo.

Na pré-temporada de 2020, diversos setoristas do Botafogo informavam que o então técnico Alberto Valentim treinou algumas vezes com Cícero atuando na zaga. Seriam indícios de uma mudança permanente? Não sei. O fato é que contra a Cabofriense a mudança ocorreu. Só que dessa vez ele não atuou como um zagueiro de fato, e sim como um líbero. Cícero foi o jogador da sobra e que tinha liberdade para sair jogando. Pra jogar nessa função é necessário ter uma boa visão de jogo, um bom passe e uma boa técnica, e a velocidade não é um atributo primordial, pois tem outros dois zagueiros correndo por ele e assim ele poderia se dedicar à saída de bola qualificada. Por isso que jogar de líbero é uma boa ideia pro Cícero. 

Com três zagueiros, o esquema permite que o time jogue com alas. E por que isso pode ser bom ao Botafogo? Um dos setores que mais são criticados pela torcida alvinegra são as duas laterais. Tanto a lateral direita quanto a esquerda não são setores consistentes da equipe. Nenhum lateral que está atualmente no elenco inspira confiança. Se esses laterais jogarem como alas, eles um pouco mais livres da urgência na recomposição (não totalmente), pois haverá um zagueiro fazendo a cobertura dele com mais eficiência. Dessa forma, os laterais ganham um pouco mais liberdade no apoio aos meias e atacantes e isso aumenta o poder de criação e de fogo do time. 

Cícero atuaria como líbero e Luiz Fernando jogaria como um ala pela direita com bastante liberdade para atacar

O Autuori chegou a optar por escalar o Luiz Fernando como um ala pela direita, em vez de um lateral de origem. Embora eu tenha minhas críticas ao futebol do Luiz Fernando, reconheço que talvez ele seja o melhor jogador do elenco para executar esse papel, pois ele tem velocidade para chegar no campo de ataque e tem disposição pra fazer uma eventual recomposição defensiva. Sem falar que ele contaria com a generosa cobertura do Marcelo Benevenuto, atualmente o melhor zagueiro do time. No entanto, caso o Autuori precise se resguardar um pouco mais, pode optar por um dos laterais do elenco.

Do outro lado se especula a chegada de Victor Luís. Caso confirmado o empréstimo junto ao Palmeiras, será um grande reforço pra equipe. Ele é um jogador que naturalmente consegue preencher bem os espaços defensivos da equipe e, apesar de não ser o seu foco, ofensivamente ele consegue contribuir. De repente ele pode funcionar como o Filipe Luís no Flamengo, como um lateral que fecha a linha de meio campo pela esquerda. Pode funcionar bem.

Agora vamos ao jogador mais baladado: Keisuke Honda. Muita gente estranhou o meia japonês atuando como uma espécie de segundo volante. Alguns até criticam, dizendo que ele deveria jogar mais adiantado, mais próximo ao gol, e que ele na "volância" era um desperdício. Eu prefiro enxergar de outra forma. Honda, assim como o Cícero (não estou comparando), é um jogador com muita qualidade técnica, ótima visão de jogo, passe excelente e um chute muito bom, mas que não tem a velocidade de outros tempos. Honda tende a cadenciar o jogo, enquanto Bruno Nazário tenta acelerar. O Honda jogando mais atrás pode auxiliar o Cícero e o outro volante, que na minha visão seria o Caio Alexandre, a fazer a transição ofensiva ser mais qualificada. Então no fundo eu acho uma boa ideia ele jogando nessa função. No entanto, concordo que ele poderia se aproximar mais de Bruno Nazário, e vice versa. Falta interação entre os jogadores mais criativos do elenco. O Honda pode vir de trás para buscar a tabela ou o chute. Essa aproximação seria fundamental.

Outro ponto que gostaria de destacar é em relação ao Bruno Nazário. Muitos botafoguenses por quererem ver o Honda na frente, insistem em pedir para que o camisa 10 jogue como ponta direita na vaga do Luiz Fernando. Me desculpe se você defende isso, mas na minha visão isso não faz sentido nenhum. Bruno Nazário já foi escalado algumas vezes na ponta direita com a camisa do Botafogo e já provou que não rende a mesma coisa que quando atua pelo meio. Além disso, o camisa 10 não consegue ajudar na recomposição defensiva e ter um lado de campo todo na conta do Marcelo pode sobrecarregá-lo (por melhor que ele seja, é preciso um mínimo de apoio defensivo do ala/ponta). O melhor Nazário é jogando pelo meio, mas abrindo eventualmente para os lados (o que é diferente de ser um ponta) para tentar construir as jogadas.

Marcelo Benevenuto fica responsável pela cobertura do lado direito, enquanto Honda e Luiz Fernando ajudam a fechar os espaços


"Beleza, Nycolas. Mas você não acha que esse time ficaria muito exposto defensivamente?"

Sinceramente, não acho. Mas para que isso funcione bem, o Botafogo precisa alinhar muito bem o posicionamento defensivo. Teria que compactar muito bem as linhas defensivas para não dar espaço ao adversário. Isso não significa retranca, significa aproximar as linhas. O Flamengo, que hoje é referência, aproxima as linhas. Quando perde a bola, todo mundo marca junto pra recuperar o mais rápido possível. Esse posicionamento do Flamengo do Jorge Jesus permitiu o time a jogar sem um volante ladrão de bolas (sem Cuellar ou Márcio Araújo), pois todo mundo no meio de campo morde o adversário.

"Mas Nycolas, e o Kalou?"

Bem, pra esse momento eu considero o Kalou um reserva de luxo. Acho que ele pode ser um jogador de segundo tempo, ou um jogador para quando o Paulo optar por um esquema que necessite de um jogador mais agudo pelos lados. Por que ele não seria titular? Pelos 35 anos que tem. Não sei com que condição física ele chega ao Brasil, mas é provável que não tenha mais a mesma disposição na recomposição defensiva (falei bastante disso, né?). Em um jogo que isso não seja a prioridade, ele pode ser um titular, sobretudo em uma possível variação para um 4-2-3-1.

Variação com 4-2-3-1 pode explorar a velocidade do marfinense Kalou


O Botafogo não é um time perfeito. Pelo contrário, é cheio de limitações. Entretanto, é possível trabalhar com essas limitações de maneira que dê pra montar um time competitivo. Esse time já é melhor que o de 2019 e ver que o Autuori tá pensando alternativas e tentando elaborar um padrão tático (coisa que faltou em 2019), isso já é bem animador. É fato que o Botafogo não jogou bem contra Portuguesa e Fluminense, mas não vejo isso como o fim do mundo. Prefiro enxergar como oportunidades para ver os defeitos e elaborar soluções. E isso é tática.

domingo, 12 de julho de 2020

Prepara o "Pojeto"

Olá, corneteiro de plantão! Tudo bem com você? 


Você deve estar se perguntando nesse momento: “quem é você? Como eu vim parar aqui?” Tá confuso, né? Pois bem. Vou elucidar um pouquinho as coisas.  


Meu nome é Nycolas Santana e se você está lendo isso você provavelmente é meu amigo ou algum curioso que descobriu este blog/texto por acaso. Seja lá o que for, vou me apresentar e tentar te convencer que vale a pena continuar aqui no Resenha Corneta! 


Sou carioca, morador da Ilha do Governador, nascido em 1994, jornalista e estudante de publicidade. Gosto de música (canto e toco guitarra mal), assisto uns filmes ou séries de vez em quando e por último, mas não menos importante, sou um botafoguense muito chato. Bem, digamos que nos últimos anos não tenho presenciado muitas alegrias futebolísticas rs. Mas isso não afeta em nada o fato de que eu sou apaixonado por futebol. 


Quando foi convidado pelo meu amigo Calvin Fernandes para escrever no Resenha Corneta eu tenho CERTEZA que ele escolheu o nome pensando em mim, porque não existe ser humano na face da terra mais corneteiro que eu! No entanto, eu sempre busco fundamentar a minha corneta, e não ser a corneta pela corneta. Gosto muito de zuar literalmente qualquer time de futebol, inclusive o Botafogo, mas ao mesmo tempo eu também gosto de sentar e parar pra analisar com frieza algumas coisas que acontecem no meio. 


Clubismo? Amo e odeio. Gosto de quando o clubismo é bem exagerado mesmo mas com o sentido de levar um pouco de bom humor ou irreverência ao torcedor. Mas tem hora que eu simplesmente tenho vontade de socar torcedor clubista que é INCAPAZ de reconhecer defeitos o próprio time. Esse clubismo irrita. Maaaaaaas... Se você é esse clubista, fique à vontade para comentar! 


“Você vai cagar ou vai jogar bola?”, diz o verdadeiro Mister (Foto: Denis Doyle/Getty Images)

Agora vamos ao que interessa: a coluna. Esta coluna que escrevo vai ser direcionada às análises táticas. Não sou um profundo conhecedor ou entendedor de tática, mas é uma área do futebol que tenho gostado muito de acompanhar. Gosto de tentar enxergar o que os técnicos estão tentando fazer em campo, de ver as variações, de ver jogadores fazendo uma função diferente e isso determinar o rumo da partida, e etc. Isso se desenvolveu bastante em mim nos últimos meses depois de começar a acompanhar alguns jornalistas/youtubers que fazem essas análises e também após voltar a jogar Football Manager. Não sou um cara dos números, mas sempre que tiver algum número relevante que valha apresentar, então o farei. 


A coluna não será exclusiva de análise tática. Às vezes eu só vou cornetar alguém porque estou afim (pra não perder o hábito). Mas, tentarei seguir esse caminho pra dar um pouco de coerência. Não prometo escrever com frequência, mas tentarei. É isso!  


Sejam bem-vindos à “Prancheta do Pofexô”!