Bem, como já foi dito no texto de inauguração desta coluna MARAVILHOSA, eu gosto muito de futebol. Mas acima de tudo, sou botafoguense. Então, nada mais justo que fazer meu primeiro texto de fato falando sobre Botafogo. Mais que isso, falando sobre o Botafogo que eu gostaria de ver.
Recentemente estava navegando pelo Facebook e me deparei com o grupo Resenha Alvinegra, um grupo que faço parte em que reúne uma porção de botafoguenses para conversarem sobre qualquer coisa relativa à Botafogo. Lá tem tudo quanto é tipo de botafoguense: o que reclama de tudo, o que acredita em qualquer coisa que publicam, o sensato, o chato, o velho, o novo... é um verdadeiro zoológico! Mas uma coisa me chamou muito a atenção nesse grupo. Após o empate contra o Fluminense que culminou na eliminação do Botafogo do Campeonato Carioca, muitos começaram a postar escalações que gostariam que o técnico Paulo Autuori fizesse. E o mais impressionante disso tudo é que NENHUMA dessas escalações fazia algum sentido. As pessoas simplesmente escalavam os jogadores favoritos de qualquer jeito só pra colocá-los em campo.
Vendo isso, tive a ideia de eu mesmo fazer um post explicativo no grupo sobre como eu enxergo o Botafogo, com base nas ideias do próprio Autuori, e agora estou trazendo o conteúdo com mais comentários para cá. Então vamos lá!
OBS: o post foi feito no dia 7 de julho, época em que saíram notícias de um interesse em Victor Luís, Bruno Forster e Luiz Antônio, e o Kalou ainda não havia sido confirmado. Levem isso em consideração ao ver as imagens.
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| Esquema base seria um 3-5-2 bem semelhante ao desenho tático da Seleção Brasileira de 2002 |
O Botafogo reestreou no Campeonato Carioca (vulgo Covidão 2020) contra a Cabofriense usando uma espécie de 3-5-2. O técnico Paulo Autuori e o auxiliar Renê Weber escalaram um time com base na condição física dos jogadores, mas já apresentaram algumas soluções interessantes que podem ser exploradas ao longo da temporada. Vale destacar que antes mesmo de o Botafogo usar esse esquema eu já comentava entre amigos que seria uma boa ideia o Botafogo jogar com 3 zagueiros, especialmente com o Cícero fazendo uma função de líbero.
Já que falei nele, vamos começar pelo Cícero! Ele é um jogador muito técnico, com uma visão de jogo muito interessante, passe bom, chute bom e até um bom cabeceio, apesar de ser baixinho. No entanto, conforme foi ficando mais velho, Cícero foi perdendo velocidade e isso começou a comprometer as atuações dele. Ele cada vez mais foi recuando de posição, até chegar à zaga. Cícero estreou na zaga pela primeira vez em 2019, numa partida válida pela Copa Sulamericana contra o Atlético-MG. Na ocasião, o Botafogo havia perdido Joel Carli por suspensão, Gabriel por cláusula de empréstimo (não podia enfrentar o Galo), e havia vendido/emprestado os outros três zagueiros que tinha registrado na competição. Sobrou pro Ciço para atuar ao lado de Marcelo Benevenuto (que havia falhado no jogo de ida). Mas ao contrário do que era imaginado, Cícero jogou muito bem e foi um dos melhores em campo.
Na pré-temporada de 2020, diversos setoristas do Botafogo informavam que o então técnico Alberto Valentim treinou algumas vezes com Cícero atuando na zaga. Seriam indícios de uma mudança permanente? Não sei. O fato é que contra a Cabofriense a mudança ocorreu. Só que dessa vez ele não atuou como um zagueiro de fato, e sim como um líbero. Cícero foi o jogador da sobra e que tinha liberdade para sair jogando. Pra jogar nessa função é necessário ter uma boa visão de jogo, um bom passe e uma boa técnica, e a velocidade não é um atributo primordial, pois tem outros dois zagueiros correndo por ele e assim ele poderia se dedicar à saída de bola qualificada. Por isso que jogar de líbero é uma boa ideia pro Cícero.
Com três zagueiros, o esquema permite que o time jogue com alas. E por que isso pode ser bom ao Botafogo? Um dos setores que mais são criticados pela torcida alvinegra são as duas laterais. Tanto a lateral direita quanto a esquerda não são setores consistentes da equipe. Nenhum lateral que está atualmente no elenco inspira confiança. Se esses laterais jogarem como alas, eles um pouco mais livres da urgência na recomposição (não totalmente), pois haverá um zagueiro fazendo a cobertura dele com mais eficiência. Dessa forma, os laterais ganham um pouco mais liberdade no apoio aos meias e atacantes e isso aumenta o poder de criação e de fogo do time.
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| Cícero atuaria como líbero e Luiz Fernando jogaria como um ala pela direita com bastante liberdade para atacar |
O Autuori chegou a optar por escalar o Luiz Fernando como um ala pela direita, em vez de um lateral de origem. Embora eu tenha minhas críticas ao futebol do Luiz Fernando, reconheço que talvez ele seja o melhor jogador do elenco para executar esse papel, pois ele tem velocidade para chegar no campo de ataque e tem disposição pra fazer uma eventual recomposição defensiva. Sem falar que ele contaria com a generosa cobertura do Marcelo Benevenuto, atualmente o melhor zagueiro do time. No entanto, caso o Autuori precise se resguardar um pouco mais, pode optar por um dos laterais do elenco.
Do outro lado se especula a chegada de Victor Luís. Caso confirmado o empréstimo junto ao Palmeiras, será um grande reforço pra equipe. Ele é um jogador que naturalmente consegue preencher bem os espaços defensivos da equipe e, apesar de não ser o seu foco, ofensivamente ele consegue contribuir. De repente ele pode funcionar como o Filipe Luís no Flamengo, como um lateral que fecha a linha de meio campo pela esquerda. Pode funcionar bem.
Agora vamos ao jogador mais baladado: Keisuke Honda. Muita gente estranhou o meia japonês atuando como uma espécie de segundo volante. Alguns até criticam, dizendo que ele deveria jogar mais adiantado, mais próximo ao gol, e que ele na "volância" era um desperdício. Eu prefiro enxergar de outra forma. Honda, assim como o Cícero (não estou comparando), é um jogador com muita qualidade técnica, ótima visão de jogo, passe excelente e um chute muito bom, mas que não tem a velocidade de outros tempos. Honda tende a cadenciar o jogo, enquanto Bruno Nazário tenta acelerar. O Honda jogando mais atrás pode auxiliar o Cícero e o outro volante, que na minha visão seria o Caio Alexandre, a fazer a transição ofensiva ser mais qualificada. Então no fundo eu acho uma boa ideia ele jogando nessa função. No entanto, concordo que ele poderia se aproximar mais de Bruno Nazário, e vice versa. Falta interação entre os jogadores mais criativos do elenco. O Honda pode vir de trás para buscar a tabela ou o chute. Essa aproximação seria fundamental.
Outro ponto que gostaria de destacar é em relação ao Bruno Nazário. Muitos botafoguenses por quererem ver o Honda na frente, insistem em pedir para que o camisa 10 jogue como ponta direita na vaga do Luiz Fernando. Me desculpe se você defende isso, mas na minha visão isso não faz sentido nenhum. Bruno Nazário já foi escalado algumas vezes na ponta direita com a camisa do Botafogo e já provou que não rende a mesma coisa que quando atua pelo meio. Além disso, o camisa 10 não consegue ajudar na recomposição defensiva e ter um lado de campo todo na conta do Marcelo pode sobrecarregá-lo (por melhor que ele seja, é preciso um mínimo de apoio defensivo do ala/ponta). O melhor Nazário é jogando pelo meio, mas abrindo eventualmente para os lados (o que é diferente de ser um ponta) para tentar construir as jogadas.
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| Marcelo Benevenuto fica responsável pela cobertura do lado direito, enquanto Honda e Luiz Fernando ajudam a fechar os espaços |
"Beleza, Nycolas. Mas você não acha que esse time ficaria muito exposto defensivamente?"
Sinceramente, não acho. Mas para que isso funcione bem, o Botafogo precisa alinhar muito bem o posicionamento defensivo. Teria que compactar muito bem as linhas defensivas para não dar espaço ao adversário. Isso não significa retranca, significa aproximar as linhas. O Flamengo, que hoje é referência, aproxima as linhas. Quando perde a bola, todo mundo marca junto pra recuperar o mais rápido possível. Esse posicionamento do Flamengo do Jorge Jesus permitiu o time a jogar sem um volante ladrão de bolas (sem Cuellar ou Márcio Araújo), pois todo mundo no meio de campo morde o adversário.
"Mas Nycolas, e o Kalou?"
Bem, pra esse momento eu considero o Kalou um reserva de luxo. Acho que ele pode ser um jogador de segundo tempo, ou um jogador para quando o Paulo optar por um esquema que necessite de um jogador mais agudo pelos lados. Por que ele não seria titular? Pelos 35 anos que tem. Não sei com que condição física ele chega ao Brasil, mas é provável que não tenha mais a mesma disposição na recomposição defensiva (falei bastante disso, né?). Em um jogo que isso não seja a prioridade, ele pode ser um titular, sobretudo em uma possível variação para um 4-2-3-1.
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Variação com 4-2-3-1 pode explorar a velocidade do marfinense Kalou
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O Botafogo não é um time perfeito. Pelo contrário, é cheio de limitações. Entretanto, é possível trabalhar com essas limitações de maneira que dê pra montar um time competitivo. Esse time já é melhor que o de 2019 e ver que o Autuori tá pensando alternativas e tentando elaborar um padrão tático (coisa que faltou em 2019), isso já é bem animador. É fato que o Botafogo não jogou bem contra Portuguesa e Fluminense, mas não vejo isso como o fim do mundo. Prefiro enxergar como oportunidades para ver os defeitos e elaborar soluções. E isso é tática.