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segunda-feira, 20 de julho de 2020

A herança do Mister ao Flamengo

É, o "Mister" Jorge Jesus pirulitou-se para o Benfica. Apesar de não ter sido uma saída muito legal, com pouca transparência do técnico português, é inegável que ele deixou bons frutos ao elenco rubro-negro. O time, que teve um primeiro semestre de muita desconfiança sob o comando de Abel Braga, foi ajeitado, encorpado e de fato se tornou a melhor equipe do Brasil. Apesar da saída de Jorge Jesus neste mês de julho, o Mister deixou um trabalho muito bem encaminhado para o futuro técnico. Mas o que exatamente fica de herança para o novo comandante do elenco campeão da América?

Independente de quem vá assumir o comando técnico do Flamengo, ele de cara terá ótimas peças a disposição. Gabigol, Bruno Henrique, Éverton Ribeiro, De Arrascaeta, Gérson... Uma infinidade de bons jogadores. E mesmo que eventualmente algum desses jogadores seja vendido, hoje o Flamengo conta com um poderio financeiro capaz de repor essas peças à altura. Além disso, o time já tem um padrão tático e uma filosofia de jogo muito eficientes para competir em nível nacional e internacional. Ou seja, se o novo técnico só manter o que já existe, ou fazer pequenos ajustes, a chance de sucesso ainda é bem alta.

Jorge Jesus deixou o terreno preparado para o próximo treinador do Flamengo (Foto: Getty Images)

Hoje o Flamengo joga numa espécie de híbrido de 4-1-3-2 (esquema favorito de Jorge Jesus) com um 4-2-3-1. É um time que ofensivamente é muito fluido.  Com a bola em posse no ataque, é muita movimentação e troca de passes pra tentar invadir a área adversária com o máximo de gente possível. E quando a bola está no campo de defesa no pé dos zagueiros, pode esperar que a bola longa vem aí. 

Mas não é só ofensivamente que o Flamengo brilha. Defensivamente, a equipe é muito compacta e aposta na chamada "pressão pós perda", em que o time tenta recuperar a posse de bola muito rapidamente ainda no campo de ataque. Essa soma de fatores é um rolo compressor nas defesas adversárias, que não restam muita opção que não seja a bola longa –que acaba virando um chutão, pois como a linha defensiva rubro-negra é alta e bem próxima ao meio campo, a bola na maioria das vezes não chega em ninguém.

Algumas peças são fundamentais para que esse esquema funcione em sua plenitude. Começando pela defesa, temos Rafinha e Filipe Luís com papeis importantíssimos na transição ofensiva. No Flamengo, Rafinha é mais que o entregador de Gatorade (rs). Ele é responsável pela amplitude e pela profundidade pelo lado direito. Ele aproveita que Éverton Ribeiro tem a tendência a cortar para o meio e explora todo o corredor pela direita, buscando as jogadas de linha de fundo. Já Filipe Luís tem uma "função dupla". Ora faz a ultrapassagem pelo lado esquerdo, ora fecha a linha de meio campo como um terceiro homem de meio campo – o chamado "lateral interior"

Gérson é o jogador mais dinâmico do meio campo do Flamengo (Foto: Divulgação)

No meio, Gérson é extremamente exaltado pelo dinamismo que dá à equipe. Ele funciona basicamente como um organizador móvel, que procura o espaço vazio para criar e com isso ocupa várias faixas do campo. Mas isso só é possível porque a linha defensiva está adiantada e Willian Arão (tá mal?) garante os eventuais avanços de Gérson. O volante, que se notabilizou pela função de ser um box-to-box e era presença constante na área adversária, deu um passo para trás e entendeu o que Jorge Jesus queria dele: um primeiro volante para fazer a saída de bola com muita qualidade. Arão tem um bom passe e sabe sair para o jogo quando necessário. Apesar de não tem um poder de marcação tão forte – vide alguns lances em que ficou só olhando o adversário passar –, o volante aprendeu a se posicionar bem e garante uma segurança defensiva junto a zaga.

O esquema funciona tão bem que Éverton Ribeiro e De Arrascaeta funcionam quase como "coadjuvantes de luxo". O primeiro tem uma função de construção de jogo pelo lado esquerdo, mas com o movimento constante de receber na ponta e ir para o meio. O uruguaio tem um papel um pouco diferente, em que atua centralizado, mas com momentos que abre para a esquerda e momentos que entra na área para finalizar. No Football Manager, ele pode ser tratado com o um "Atacante Sombra"

Mas Éverton Ribeiro e De Arrascaeta só são tratados como coadjuvantes por causa de dois nomes: Bruno Henrique e Gabigol. A dupla de ataque avassaladora no ano. Ambos foram responsáveis por mais de 50% dos gols do Flamengo em 2019 (78 dos 153 gols na temporada). E o que mais chamou a atenção nesse time foi o posicionamento dos dois em campo.

Na teoria, Gabigol é o 9 e Bruno Henrique o ponta esquerda. Na prática, nada disso era real. Gabigol constantemente foi visto saindo da área, por vezes até indo para a ponta direita para que Arrascaeta ou Bruno Henrique entrassem na área. Sim, o Bruno Henrique diversas vezes fazia o movimento da ponta para a área. Houve momentos até que Bruno Henrique foi o centroavante do time. Era um posicionamento muito livre dos dois, mas que sempre buscavam o gol. E os dois foram mortais nisso.

Dupla de ataque rubro-negra é mortal e os adversários sabem disso (Foto: Divulgação)

Além dos titulares, hoje o Flamengo conta com um banco de respeito. O próximo técnico rubro-negro tem peças variadas para escolher. Alguns desses merecem destaque.

É o caso de Michael, a grande revelação do último campeonato brasileiro. O ponta esquerda habilidoso tem um comportamento em campo um pouco diferente de Bruno Henrique. Ele atua bem aberto buscando o drible ou o passe. Embora faça seus golzinhos, não oferece o mesmo poder de finalização. Pode ser uma peça importante na temporada caso o treinador opte por ter mais velocidade e amplitude pelo lado esquerdo. Pedro Rocha atua pela direita e busca a linha de fundo. No entanto, tem mais poder de finalização que Michael, o que garante mais uma opção de jogo. 

Vitinho é quase que um "décimo segundo jogador". Entra com frequência no segundo tempo e tem algumas características importantes de analisar. Diferentemente do que fazia no Botafogo e no Internacional, pelo Flamengo o jogador tem um comportamento de receber na ponta esquerda e cortar pro meio para finalizar de média distância. Raramente vai à linha de fundo, como no Botafogo, e não tem pisado tanto na área, como no Inter. Independente de ser bem visto ou não pela torcida, é sempre bom ter no elenco um jogador que gosta de chutar de longe.

Outra opção interessante no banco é Diego. Apesar de ser hoje contestado, o meia tem uma característica de cadenciar o jogo, de vir buscar a bola no círculo central e tentar o lançamento para o ataque – vimos na final contra o River Plate, ainda que tenha sido um ato de desespero. Sempre é uma carta na manga ter no time um jogador que ponha a bola e tente controlar o jogo. 

E por último, mas não menos importante: Pedro. O legítimo camisa 9 que Jorge Jesus tanto pediu em 2019 chegou no ano seguinte. Apesar de o ataque do Flamengo ter por característica não ter um 9 fixo, todo grande time precisa de um jogador de referência para uma eventual necessidade. Até mesmo o Guardiola, que popularizou o tiki-taka, fez uso de um 9 em momentos de desespero – basta lembrar das inúmeras vezes em que deslocou Piqué para o ataque na esperança de marcar um gol nos últimos minutos de um mata-mata de Champions League. Pedro faz com excelência a função de centroavante e isso possibilita inúmeras variações táticas para o Flamengo, que pode jogar com ele os 90 minutos, ou usar ele no decorrer da partida. Talvez seja de todos o reserva mais importante do time.

Time base do Flamengo é recheado de opções

Apesar de tanta riqueza de peças, hoje o Flamengo apresenta alguns pontos fracos que precisam ser corrigidos pelo novo comandante. O primeiro deles é a falta de opções na reserva para o Rafinha. João Lucas não correspondeu quando foi exigido e o jovem Matheus França ainda não tem a experiência que hoje o time exige. Numa eventual lesão ou suspensão do titular, o Flamengo sofre um baque.

A reserva da outra lateral pode também ser considerada um ponto fraco, de certa forma. Ainda que Renê não comprometa o time taticamente, ele entrega muito menos apoio ofensivo e criativo do que Filipe Luís. Então, pode haver momentos do jogo em que não vai haver ninguém ocupando o corredor esquerdo, enquanto o meio e a direita são preenchidos, provocando desequilíbrio no time. 

Contratados como opção para a saída de Pablo Marí, os zagueiros Gustavo Henrique e Léo Pereira ainda não se adaptaram completamente ao esquema. Como são bons zagueiros, é provável que com o tempo isso seja resolvido. O problema é que se isso demorar demais, os adversários podem aproveitar...

Outro ponto negativo é o Gérson. Ele, que funciona como o termômetro do time, por diversas vezes teve atuações apagadíssimas em partidas importantes. Em jogos de maior peso, foi muito discreto e não deu o dinamismo que é necessário à equipe. O mesmo pode ser dito de Willian Arão, que em certos jogos não só foi discreto como foi muito mal. Seria a hora de pensar em escalar o Thiago Maia nessas partidas? Veremos.

Vale destacar também que aos poucos as equipes estão entendendo como travar o Flamengo. Equipes como Santos, Botafogo, Vasco, Fluminense, River e até mesmo a Portuguesa-RJ causaram problemas aos rubro-negros. E muito disso foi combatendo fogo com fogo. Todos esses times se fecharam em linhas compactas, assim como o Flamengo faz, e alguns deles apostaram na pressão na saída de bola dos zagueiros, com o objetivo de pegar a defesa de calça arreada e fazer o gol. 

O Flamengo teve dificuldades para furar o bloqueio e segurar as saídas rápidas da Portuguesa-RJ (Foto: Reprodução/Marcelo Cortes/Flamengo)

O Liverpool, na final do Mundial de Clubes, adotou outra estratégia. Os "ingleses" escolheram manter a posse de bola na defesa, esperando a pressão rubro-negra para apostar na bola longa. Desta vez funcionou porque o Liverpool sabe jogar desse jeito e armou o time pensando nisso, diferente da maioria dos times brasileiros. Dessa forma, desgastaram fisicamente os comandados de Jorge Jesus e se aproveitaram disso para exercer a sua estratégia.

Enfim! Seja quem for o novo técnico do Flamengo, é importante que tenha o entendimento do jeito que a equipe jogue e faça essas correções. Dessa forma, é fundamental que a diretoria rubro-negra procure alguém que seja adepto da mesma filosofia de jogo proposta por Jorge Jesus, mas que também tenha força para comandar um elenco estrelado. Os caminhos apontam para um técnico estrangeiro, mais precisamente, português. Se o Flamengo deseja repetir o sucesso do ano passado, não basta o novo treinador receber a herança, ele tem que falar a mesma língua do "Mister".

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