Esporte na língua do povo, sem rabo preso e sem modismo, no amor e ódio eterno do torcedor raiz.

sábado, 22 de agosto de 2020

Kalouando os críticos

O texto de hoje vem no embalo do bom desempenho do Botafogo nas primeiras rodadas do Brasileirão, à véspera de um clássico importante contra o Flamengo
Já expressei no texto anterior, mas vale repetir: tanto não era pra estarmos jogando bola agora, como ainda seremos obrigados a parar de novo em breve. Mas que seja, infelizmente os tomadores de decisão são tão hipócritas quanto intransigentes e ignorantes. E assim seguimos para o abismo.

Quero fazer um retrospecto e uma avaliação geral do que vimos do Glorioso até agora. Vale dizer que, desde o retorno, houve uma evolução consistente no padrão de jogo da equipe. Nem sempre performando tecnicamente bem, mas jogando sempre de forma organizada e reduzindo as fragilidades defensivas. Mérito que deve ser dado ao Autuori, que arrumou a casa como pôde e segue quebrando a cabeça pra tirar o melhor do elenco enxuto com as peças que tem e que chegaram recentemente. Tem muita coisa a destacar, especialmente a AULA que ele deu no Sampaoli. Mas vamos por partes, quero analisar o jogo depois.

Uma decisão claramente notável foi recuar o posicionamento do Honda, que tem atuado como segundo e às vezes primeiro volante, trocando de posição com Caio Alexandre. O Nycolas já deu uma certa analisada nisso, e não vou ficar repetindo muito, mas o destaque é que o próprio Honda alegou em entrevista ter pedido pra jogar mais atrás e estar buscando dar liberdade pro Caio avançar, enxergando no garoto o potencial de chegar mais ao gol e armar o time. Quando poupado do jogo contra o Galo, logo surgiu um frenesi nos mesmos torcedores que achavam que ele não deveria ser escalado dessa forma. Em outras palavras, acho que a questão está bem definida, ele pode atuar ali e deve seguir assim.

OU SERÁ QUE NÃO?

2 contratações e algumas saídas/desfalques recentes do Botafogo vieram colocar a pinta final de dúvida que faltava pra todo mundo sobre o que é a formação ideal pro time. Nós aqui batemos na tecla do 3-5-2, tendo Cícero de líbero e Honda volante, mas aí o Cícero pegou COVID/combo lesão/combo velhice e o Luiz Fernando DO NADA foi emprestado pro Grêmio - creio eu que pra gerar caixa rápido pra pagar os salários atrasados dos funcionários, fora disso não há justificativa - matando a nossa ponta direita com função tática. 
Por outro lado, Kalou, Victor Luís e Forster chegaram, enquanto Kanu se firmou como um zagueiro de bom nível e que merece ser titular. Barrandeguy, com toda sua dificuldade, elevou o nível das atuações e Autuori descobriu um senhor ponta/ala/volante em Guilherme Santos, o lateral esquerdo que já ia ser dispensado. 

Honda e Kalou juntos. Vai dar bom? Forster e Victor Luís também chegaram somando muito ao elenco. Foto: Vitor Silva/Botafogo. Fonte: Uol Esportes. 


Em outras palavras, o time tem real condição de alternar a posição do Honda ou mesmo revezar sua escalação com Bruno Nazário na função de meia. Ou, quem sabe, ESCALAR AMBOS?
Sim, é possível. Forster era cotado para ser zagueiro ou improvisado na lateral, mas atuou com perfeição na volância contra o Galo. Mostrou qualidade absurda de passe e lançamento, com marcação forte e precisa. Era o volantão que todo mundo queria que estivesse do lado do Caio e do Honda. Se o time precisar de mais força de marcação, poderia ser improvisado na lateral dando espaço para Guilherme assumir a vaga no meio. 

Possível posicionamento defensivo pro time. Forster como um falso ala, fechando o espaço direito na falta de um ponta pra função. 

Com isso, o time teria uma dupla de meias extremamente técnicos, um ponta agudo e decisivo (Luis Henrique) e um bom centro avante a escolher (Raul ou Babi, que tem atuado bem demais). Taticamente, os ataques se concentrariam mais à esquerda, o que obrigaria que um dos volantes ficasse mais ao lado direito. De início, eu imagino o Caio mais centralizado, com o Forster ocupando aquele espaço para evitar os avanços nas costas do Barrandeguy. Seria um 4-1-4-1 na defesa. Ofensivamente, os laterais subiriam com liberdade ao meio, com Honda recuando um pouco mais pra buscar a bola e Nazário encostando no ataque, e os volantes fechando a linha de 4 defensiva. 

Laterais soltos, volantes fechando linha. Time ganha técnica e finalização, sem abdicar de velocidade. Volantes tem alta qualidade de passe. 
 
Obviamente, essa ideia parte do conceito de que Forster poderia de fato atuar ali pelo lado direito. Nem inserimos a incógnita Kalou - que se estiver bem, é difícil prescindir de sua técnica, mas precisaria de compensação na parte tática pra ele jogar, ainda mais junto com o Honda. Se Forster apenas puder fazer a cabeça de área centralizado, talvez seja o substituto ideal - e titular incontestável - no lugar do Cícero para o 3-5-2 que concebemos antes, com Kalou e Luís Henrique revezando atuações/tempos. O time pode variar bastante usando Guilherme Santos, que pode entrar na volância no lugar do Caio ou do Honda, e também na ponta fechando melhor o espaço sem deixar de oferecer produção ofensiva. Inclusive, continuo achando que deve ser a melhor formação possível esse 3-5-2. 

Entretanto, acho que vai ser difícil ver esse time jogar assim. A chegada do Kalou com certeza exerce pressão pra que se encontre um jeito do time usar Honda e Kalou o máximo de tempo possível, aproveitando da possibilidade de fazer 5 substituições. Pensando isso, uma ideia que me ocorreu foi a seguinte:

4-3-3: Time compensa a presença de Honda e Kalou com 2 volantes fortes na marcação. Voltado para contra ataque, explorando Luis Henrique e Kalou (enquanto tiver gás). 

Penso que se ambos precisam jogar, e se vamos precisar disso, o meio campo precisa compensar em marcação. Não da pra pedir pra Kalou e Honda ficarem atrás de lateral. Com isso, avanço Honda para atuar mais próximo à área, fecho um meio marcador e com capacidade de lançamentos longos para explorar contra ataques usando os pontas (Caio como opção caso Guilherme não possa atuar, acho Luís Otávio muito verde ainda). Esse time necessariamente precisaria treinar bastante linha de impedimento defensiva: a ideia é congestionar o meio sem bola, e sair em velocidade. Portanto, zaga e volantes precisam estar próximos dos pontas, impedindo o adversário de construir e atacando rápido. Com a escalação, preservamos algumas peças para o segundo tempo, onde dá pra alternar um pouco o panorama e voltar para o famigerado 3-5-2, trazendo Nazário, Caio e Babi a campo, renovando as energias. 

Deixo o resto pro Nycolas palpitar e fazer seus desenhos, que já roubei muito a função dele. 
Mas temos que falar da SENHORA AULA de Paulo Autuori, né Maikin?

Todo mundo com cu trancado pra enfrentar o Galo, mesmo sendo nosso eterno freguês. E trancou a ponto de não passar nem elétron quando o nosso professor resolveu mandar a campo 4 atacantes, poupar Honda e barrar meio time. DEU CERTO. O Botafogo deu a bola ao oponente que adora criar, e criou, mas sem objetividade. O volume de jogo do Galo não se traduziu em chances claras, e quando estas apareceram, brilharam Kanu, Marcelo e Gatito. 
Por outro lado, o adversário avançou desesperado dando espaços, extremamente bem explorados pelo ataque do Botafogo. Todas as nossas chances levaram perigo. Um pouco mais de sorte e tinha sido 3 a 0 só no primeiro tempo. 

No total, o Galo ainda saiu no lucro com lei do ex e juiz mal intencionado tentando nos impedir de levar a vitória. Mas não foi capaz de evitar a freguesia. Derrubamos o líder do campeonato e um dos mais cotados ao título, o que mostra que esse time tem potencial pra fazer frente aos oponentes mais fortes e fazer um bom campeonato, desde que haja dedicação e inteligência por parte de jogadores e técnico. Autuori fez sua parte, e o time também, 3 pontos na conta. 

Vamos às notas. Eu costumo dar nota só em jogo que eu vou no estádio, mas isso tá longe de voltar a acontecer. Então todo jogo que eu efetivamente conseguir assistir, vou dar nota por aqui, tendo tempo de postar:

GATITO - 9
Pegou até pensamento e o que não pegou, um chute enviesado de Rabello no fim de jogo, não conta. 

BARRANDEGUY - 6,5
Sofreu marcando Keno, mas não comprometeu. Tem evoluído.

MARCELO - 8
Ganhou todas as bolas que disputou. Não ser cogitado na Seleção é má vontade com o Botafogo. 

KANU - 8
Cresceu absurdos e já é incontestável na zaga. 

DANILO BARCELLOS - 6,5
Não deu bobeira, apesar da limitação técnica. Dentro do que pode oferecer, foi bem. 

LUIZ OTÁVIO - 6
Marcou, espanou bola. Mas só também. Valeu pela entrega.

GUILHERME SANTOS - 7,5
Sua história no clube já é linda. Mais uma função executada com precisão. Sofreu um pouco até achar a marcação, mas depois que se encontrou contribuiu com leituras precisas e bons passes e arrancadas. 

LUIZ FERNANDO - 7
Tecnicamente questionável como sempre, mas taticamente perfeito e presente. Coroou a correria com um gol de oportunismo. Pode fazer falta no elenco.

LUIZ HENRIQUE - 8
Fez um inferno na defesa atleticana, iniciou as principais jogadas de perigo. Gol foi mais seu que do Luiz Fernando. 

MATHEUS BABI - 7
Meio que fora de posição, correu e deu trabalho, ganhou boas disputas e foi essencial pro funcionamento do sistema tático. 

PEDRO RAUL - 6,5
Não recebeu muitas bolas, perdeu um gol feito, mas lutou pelo time. Precisa voltar a acertar o pé na forma pra não perder a posição pro Babi. 

BRUNO NAZÁRIO - 6,5
Entrou e compôs bem sua função de desafogo. Teve gol mal anulado. 

CAIO ALEXANDRE - 7
Entrou bem, soube flutuar entre defesa e ataque quando necessário, fez mais um gol importante. 

RAFAEL FORSTER - 7,5
Entrou e tomou conta do jogo. Tem tudo pra ser titular numa posição que pode ser a solução pro time ter mais criatividade e liberdade. 

RHUAN - 6
Teve pouco tempo pra atuar, mas não foi mal. 

FERNANDO - 6
Surpreendentemente, não foi mal. 

PAULO AUTUORI - 10
Deixou todo mundo desesperado com a escalação. O resultado foi um jogo totalmente controlado pela sua estratégia, com cada movimento bem pensado. Acertou nas mudanças e não teve medo de mexer, como em outras partidas. Fez por onde relembrar que ninguém é campeão de tudo como ele é à toa. 

Amanhã tem jogo decisivo contra o Flamengo. Eles não vêm tão bem, a gente tá indo melhor que o esperado. Ou seja, favoritismo que tecnicamente já era deles foi totalmente pra eles agora, pela lei do antecedente de clássicos (quem vem bem empaca e quem vai mal acha sorte). Mas que fique o favoritismo pro lado de lá mesmo. É sempre bom vencer sendo o underdog

Saudações alvinegras!

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Botafogo e Fluminense: Os únicos clubes que orgulharam suas torcidas no quesito pandemia

Olá a todos os cornetinhas que estivessem ou não com saudade. Venho no embalo da chegada do nosso parceiro Nycolas - botafoguense doente como eu, corneta como eu, e mais metido a analista do que eu - pra retomar o hábito de tentar destrinchar opiniões medianamente embasadas e muito inflamadas sobre o futebol na perspectiva do torcedor do Botafogo

E antes de voltar a falar do futebol em si, eu preciso fazer uma pausa pra falar sobre o assunto que vai continuar norteando as discussões futebolísticas por muito tempo - assim como em toda e qualquer discussão: a pandemia de COVID-19 no mundo, e especificamente seus efeitos no Brasil. 

Pra começar: se você é bolsonarista, negacionista, maluco, qualquer dessas merdas que nega a gravidade do que está na sua frente por achismo, VAI TOMAR NO CU.  Passa fora. Ninguém te quer por aqui, abraço e fique longe dos outros para bem da saúde pública. Se até agora a ficha da merda que tu fez e está fazendo não caiu, nem quando tu pegar essa desgraça de doença vai cair.

Enfim, dito isso, vamos recapitular um pouco. Já havia sinais, desde o começo de março, que o país provavelmente sofreria alguma espécie de quarentena ou eventualmente lockdown em função da confirmação de casos de COVID no nosso território, e transmissão doméstica na sequência. Logo, era esperadíssimo que o futebol, como todos os outros tipos de eventos aglomerantes e de contato físico, iria parar. 

O problema é que, como todos sabem, as principais autoridades do país, somados a uma elite tosca e sem alma, não apenas negaram a gravidade da situação como fizeram de todo o possível para impedir que as medidas sanitárias cabíveis fossem tomadas, bem como incentivaram a população a adotar a postura menos recomendada possível numa pandemia: tocar a vida como se tudo estivesse normal e nada que os cientistas receitam funcionasse. O resultado é que não apenas a pandemia jamais esteve sob controle no país, como isso implicou no alongamento de uma quarentena meia bomba, mal feita, que em outros termos e posturas poderia ter sido infinitamente mais curta. 

O alongamento dessa quarentena representou o maior risco de aperto financeiro para os negócios - reforçando ainda mais a pressão das elites, embora estas pouco sofram com isso - e enlouquecimento geral da população em algum grau (se você não ficou meio surtado nesses meses em casa, você é um robô ou uma pessoa muito falsa e eu quero distância de ti). Para o futebol, que parou no meio dos estaduais, isso significava uma pressão enorme sobre os cofres dos clubes pequenos. Maior ainda se pensarmos que o retorno com certeza não teria público - mas cabe lembrar que a prefeitura do Rio chegou a cogitar a insanidade de liberar o retorno do público ainda em julho. 

E bom, sejamos francos, aperto financeiro é um motivo plausível pra você ficar ansioso pelo retorno. Entretanto, ao invés dos clubes se juntarem pra cobrar as entidades que poderiam suprir apoio nesse momento de necessidade - no Carioca, a FERJ - o que houve foi um apelo às autoridades para apressar um retorno de qualquer jeito. O caso do Carioca é especialmente emblemático: o Maracanã deveria sediar jogos com um hospital improvisado instalado nas imediações? 

Já havia outras polêmicas rodando o campeonato antes disso. O Flamengo tinha conseguido a proeza de jogar todos os jogos - mandante ou visitante - no Maraca. Corrigirei a frase: não foi nem o Flamengo que propôs, mas os pequenos e a FERJ que arranjaram uma venda de mando de campo em massa, forçada, pra lucrar em cima da torcida rubro-negra. O Fla não é bobo e aceitou. Mas o enviesamento esportivo que isso tem é criminoso e evidente. Flamengo foi o único dos grandes que não precisou se submeter a pegar ônibus pra estrada esburacada, jogar em estádio mal cuidado e grama enlameada até o talo. Ninguém foi punido, nenhuma reclamação oficial foi feita. 

Some isso ao elitismo e bolsonarismo assumidos da atual diretoria rubro-negra. O Flamengo ativamente pressionou pelo retorno do campeonato às pressas, apostando em um protocolo que talvez só ele pudesse atender com plenitude. Em troca, teve apoio do governo pra aprovar uma MP que favorecesse seu projeto de romper com a Globo. Eu poderia passar horas dizendo coisas sobre essa MP, que tem seus lados positivos e negativos, mas vamos assumir que se por um lado não é bonito esse tipo de politicagem, todo clube faz ou já fez ou fará, então crucificar o urubu por isso é hipocrisia. Entretanto, usar sua imagem em prol de um desserviço social, reforçando a ideia de que a pandemia estava controlada ou que fazia sentido retornar às pressas, pegou muito mal com muitos torcedores flamenguistas. Pra surpresa geral, ninguém menos que o Vasco foi o principal aliado do Flamengo nessa empreitada. Se era olho na MP ou bolsonarismo, difícil dizer. Mas foi o que aconteceu .

Botafogo e Fluminense foram os únicos clubes do Rio ativamente contra a decisão de apressar o retorno. Não só grandes não, únicos clubes mesmo. Os pequenos, como esperado, não cobravam a FERJ para auxílio, mas sim para de fato viabilizar um retorno. A FERJ já é diretamente comandada por ex-dirigentes de clubes menores, que ainda se infiltram na política dos mesmos e manipulam os bastidores. O resultado era um só: Botafogo e Fluminense seriam voto vencido. 

Apesar desse fato obviamente ter se consumado, ambos os clubes protestaram o máximo possível e mesmo judicializaram a questão: havia respaldo nas orientações das autoridades sanitárias em não retornar e portanto não havia porquê treinar, então se seriam forçados a retornar que houvesse mais tempo até as partidas. Isso não durou muito tempo e gerou situações toscas, como a FERJ anunciar que houve acordo para retorno de todos os clubes - sem assinaturas de Botafogo e Fluminense - ser desmentida e armar um pé de guerra. Paulo Autuori, técnico do Fogão, soltou poucas e boas pra cima dos cartolas safados na imprensa, sendo posteriormente censurado e suspenso de partidas. O Botafogo respondeu e foi ridiculamente atacado numa nota pífia e descarada do Bangu, que nada tinha com a conversa: obviamente quem mandou escrever foi a FERJ.

Autuori revoltado: Experiente treinador soltou o verbo pra cima dos cartolas da FERJ, e foi suspenso pelos asseclas da mesma no TJD. Foto: Vitor Silva/Botafogo. Fonte: FogãoNet.com

A coisa não parou por aí: no tão famigerado retorno, Botafogo - que levou a campo no retorno e nas partidas seguintes que teve no campeonato uma camisa homenageando os profissionais de saúde lutando contra o COVID e uma homenagem ao Black Lives Matters, além de críticas ao retorno em si - e Fluminense passaram a ser perseguidos também FINANCEIRAMENTE pela FERJ. O ataque foi sem pudor: cobrando até 10 vezes mais pelos custos de realizar a partida aos dois clubes em comparação à Flamengo e Vasco. 
Os clubes protestaram com faixas em conjunto no duelo que fizeram entre si pelas semifinais, posteriormente. 

Protesto inicial do Botafogo no fatídico retorno. Camisas pretas especiais com homenagens aos profissionais de saúde e o BLM. Fonte: Hora do Povo. 


Aí você vai questionar: "Po, maneiro, mas e daí? Voltou do mesmo jeito e agora não tá protestando pro Brasileiro"
A questão é que ambos os clubes, em nenhum momento, usaram de sua imagem de forma total e absolutamente nebulosa e cruel, nenhum deles tentou atropelar nada. Botafogo e Fluminense tentaram até o fim negociar termos mais racionais para pensar o retorno, e foram silenciados pela FERJ, com apoio de Flamengo e Vasco. Não somente, foram vítimas de uma tentativa patética de extorsão. 
Qualquer juiz com a mão na consciência revoga as cobranças feitas pela FERJ. O difícil é achar um que não seja maracutaia com a FERJ ou que seja capaz de silenciar seu clubismo. 

Mais do que só protestar por um retorno sem pé nem cabeça: Botafogo e Fluminense foram os únicos que pareceram perceber a situação do país para a sequência do futebol. A pressa de Flamengo e Vasco em retornar resultou em SEMANAS parados esperando o retorno do Brasileirão, que agora novamente ameaça parar com os números de casos de COVID disparando entre clubes - e o péssimo protocolo CBF provando-se inútil como esperado. Se o Vasco até agora não sentiu esse peso da falta de ritmo, o Flamengo com certeza sentiu e os desempenhos refletem isso. 

E vamos pensar sem má fé aqui né pessoal: Botafogo e Fluminense eram voto vencido DE NOVO  no Brasileirão, mesmo que teimassem. E a CBF consegue ser pior que a FERJ. Não havia mais o que fazer a não ser jogar, ainda que contrariado. O que importa, e o que esse texto tenta refletir, é que o recado foi dado e as torcidas pegaram. 

Ao menos eu, honestamente, me senti extremamente orgulhoso do Botafogo e sua postura mais humanitária. O time tem um porrão de problema pra resolver, nós torcedores cobramos todo santo dia que arrumem a situação de salários atrasados, especialmente pros funcionários. Mas negar que o clube deu à cara a tapa e não pegou carona no negacionismo pandêmico é ridículo. A postura foi e deve ser exaltada e lembrada sempre. RESPEITEM NOSSA HISTÓRIA!

Protesto conjunto de Bota e Flu contra a perseguição da FERJ. Foto: Gilvan de Souza/Agência Estado. Fonte: Globoesporte

A gente tava tão certo nessa conversa toda que cá estamos com o Brasileiro a no máximo poucas semanas de nova suspensão. A cereja do bolo no Carioca foi que no fim FERJ e Flamengo romperam, os clubes pequenos que foram na ideia deles se lascaram completamente com o risco da Globo não patrocinar mais o Carioca - se fecharem é merecido, não tem tradição que resista à pequeneza e mesquinharia dessas famílias de cartolas - o Flamengo tentou atropelar a própria ideia só pra não aceitar o direito do Fluminense de narrar partida com clubismo como eles fizeram, enfim. Podemos ter 20 mil problemas, mas ser babaca e ser orgulhoso de ser babaca não tá no nosso repertório. 

Aos amigos flamenguistas e vascaínos que se sentirem ofendidos, não estou atacando as torcidas nem o clube como existência, mas especificamente as diretorias e suas posturas tóxicas. O Flamengo mesmo usou de seu poderio financeiro pra tentar distribuir kits de higienização pra população - até onde sei Botafogo e Flu também fizeram - pra não ficar tão feio na fita. A questão mesmo é: vocês sentiram um pingo de orgulho assistindo essa história toda?

Eu sei o seguinte: Botafogo contratou Honda e Kalou a preço de banana, sem pagar um centavo em transferência e pagando pra eles juntos o que pagaria num Diego Souza. Tudo isso tomando penhora na cabeça todo santo dia, se virando pra tirar um centavo pra pagar meio salário atrasado. E no meio dessa pandemia, com perda de receitas. Amigo, papo reto: se o Botafogo sobreviveu desse jeito e ainda formou o elenco que formou, bom e barato assim, eu tenho certeza absoluta que vai pagar os funcionários, vai dar uma ajeitada na casa e ainda vai pagar o advogado do Fluminense pra enrabar a FERJ toda até o osso. Falem o que quiserem, vocês não podem reescrever a história. E ela cobra.

Se você ainda duvida de tudo que eu disse, leia por si próprio os capítulos toscos dessa bagaça:


Saudações alvinegras! E tricolores, também!

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Neymar é o "1" que o Zagallo sempre sonhou

Provavelmente você chegou nesse texto e tá se perguntando que caralhos é esse título. Que porra é essa de "1" que o Zagallo sempre sonhou? Neymar agora é goleiro? Zagallo queria goleiro linha? Tá doidão? Calma. Vou explicar tudinho pra você.

Resolvi escrever (com atraso) esse texto após ter visto a partida das quartas da UEFA Champions League entre PSG x Atalanta, realizada em Lisboa, na última quarta (12). Esse jogo me chamou muito a atenção o posicionamento em campo e a postura do Neymar na partida. Confesso que não sou de acompanhar o futebol francês e não vejo com tanta frequência o PSG jogar, até mesmo na Champions. Apesar de já ter ouvido falar que o Neymar vinha jogando em uma posição diferente do que estava acostumado com o Thomas Tuchel, ter visto essa partida me surpreendeu.

Neymar foi o homem do jogo contra a Atalanta, na última quarta (12)

Em tempos de Santos, Barcelona, seleção brasileira e até mesmo nas primeiras temporadas de PSG, Neymar se caracterizou como um ponta esquerda muito habilidoso, que tinha como principais características o drible, a velocidade e o grande poder de finalização. Como diria nosso grandioso técnico Tite, Neymar era o "jogador terminal". Ele decidia partidas recebendo a bola, driblando em altíssima velocidade e finalizando de maneira certeira. Costumava ser um dos artilheiros e jogadores mais decisivos da equipe que estivesse. 

Pois bem, Neymar continua sendo isso tudo. Só que agora com um detalhe: além de tudo isso que ele já tem de qualidade, ele é o principal construtor de jogadas do time. Hoje, o camisa 10 da seleção e do PSG é de fato um camisa 10. Joga mais centralizado (não tanto, mas mais no meio do que na esquerda), vindo de trás, organizando as ações ofensivas da equipe francesa e também finalizando quando tem a oportunidade. Neymar agora é o cérebro do PSG e toda jogada de ataque precisa passar por ele.

Ineficiência de Sarabia e Icardi obrigaram Neymar a ocupar o meio e a esquerda para que o PSG fosse minimamente agressivo

Isso tudo ficou bem visível no jogo contra a Atalanta. Na primeira etapa, era nítido que o PSG estava fragilizado e sentiu os desfalques de Di Maria, Kurzawa e Verratti. Além disso, Mbappé não podia jogar os 90 minutos e iniciou no banco de reservas. Dessa forma, Neymar puxou pra ele toda a responsabilidade ofensiva da equipe e obrigatoriamente qualquer lance de ataque francês passava pelos pés do brasileiro.

E mesmo após o gol da equipe italiana, o adulto Ney não se escondeu e persistiu em busca do gol de empate. Só que não contava com um Sarabia pouco efetivo e um Icardi muito mal na partida. Ele era obrigado a ocupar o corredor interno do campo e também o lado esquerdo, pois o Sarabia não tava dando conta. E mesmo quando Neymar conseguia fazer tudo certinho, pecou nas finalizações. Era um dia difícil.

Substituições serviram como desafogo para Neymar jogar mais centralizado e tivesse mais opções de passe

A situação só foi melhorar com a entrada de Mbappé, Choupo-Moting e Draxler. Mbappé jogava ocupou o lado esquerdo, Draxler o direito e Choupo-Moting virou uma referência na área (coisa que o Icardi não conseguiu fazer). Dessa forma, Neymar não só ganhou companhia para dividir a responsabilidade como passou a jogar pelo meio e de maneira bem mais livre para organizar o ataque. E foi assim que participou dos dois gols que sacramentaram a vitória francesa — em um chute lascado que sobrou para Marquinhos, e com um passe milimétrico para Mbappé encontrar Choupo-Moting sem marcação na área.

Neymar jogou como um autentico camisa 10 que muito se fala aqui no Brasil. Mais ainda, se tornou um jogador ainda mais participativo, mais decisivo e melhor.

"Mas o que que o Zagallo tem haver com isso, Nycolas? E que papo é esse de '1'?"

Vamos lá. Em agosto de 1994, pouco após o quarto título mundial do Brasil nos EUA, Zagallo foi anunciado como técnico da seleção para a Copa de 1998, na França. Zagallo assumia com alguma desconfiança por conta de que o entendimento da época era que ele seria um técnico retranqueiro. A crítica foi ainda maior devido ao fato de que muita gente criticou a maneira que Carlos Alberto Parreira conquistou a Copa de 1994, com um futebol mais pragmático — que na época foi encarado como "futebol feio". Apesar do título, o brasileiro não queria mais isso.

E qual foi a saída que Zagallo encontrou para dar a resposta à todos aqueles que o chamavam de retranqueiro? Buscar um esquema que valorizasse as qualidades individuais dos principais talentos do país. Para isso, apostou num não usual 4-3-1-2. Um esquema que teria uma linha de três volantes, em que dois deles seriam responsáveis pela dinâmica da equipe (os dois motores), e um camisa 10 que tivesse toda a capacidade criativa que o time precisava. Esse camisa 10 era o "1" do 4-3-1-2, ou como o próprio velho lobo dizia: "o 1 do Zagallo". Tal jogador seria o símbolo de uma seleção talentosa, sendo um jogador talentoso, cerebral e decisivo.

Dificuldade para encontrar o jogador ideal e desequilíbrio defensivo fizeram Zagallo abandonar o 4-3-1-2 e ir para a Copa no 4-2-2-2

Zagallo testou uma porção de jogadores nessa função. Juninho, Zinho, Giovanni, Leonardo e até Denílson. Nenhum destes correspondeu. O último testado foi Rivaldo, que também não rendeu o esperado. De acordo com Ubira Leal, comentarista da ESPN e YouTuber, o maior problema é que cada jogador testado tinha um jeito completamente diferente de se jogar e isso dificultou muito o entendimento da função que o Zagallo queria. Já para Leonardo Miranda, do Painel Tático do GE, essa função era um problema porque obrigava o meia a voltar demais para buscar o jogo, o deixando longe da área, e também forçava os atacantes a saírem da área, os tirando da zona mais perigosa. Além disso, Zagallo percebeu que a função deixou o time mais exposto defensivamente e trouxe poucos benefícios ofensivos.

No entanto, o que a gente viu do Neymar em PSG x Atalanta era exatamente o que Zagallo sempre buscou: um jogador no meio que vinha buscar o jogo, que participava lá na frente, se movimentasse com bastante liberdade, organizasse o time e de quebra ainda decidisse os jogos. Neymar entregou tudo isso.

Neymar tinha tudo para ser "o 1 do Zagallo". Se o Zagallo não fosse teimoso, poderia até encaixar o Romário nesse time.

Em um esforço para tentar escalá-lo na seleção de 98, Neymar seria esse meia cerebral que Zagallo precisava. Além disso, contaria com o auxílio generoso de Leonardo e Dunga no meio, que facilitaria mais ainda o trabalho dele. Ora seria um jogador de distribuição, ora partiria para a jogada individual, ora tentaria o passe em profundidade, ora arrancaria para tentar uma jogada em direção ao gol... São infinitas as possibilidades que o Neymar oferece hoje e poderia oferecer para a seleção de 98, caso tivesse nascido umas décadas antes.