O texto de hoje vem no embalo do bom desempenho do Botafogo nas primeiras rodadas do Brasileirão, à véspera de um clássico importante contra o Flamengo.
Já expressei no texto anterior, mas vale repetir: tanto não era pra estarmos jogando bola agora, como ainda seremos obrigados a parar de novo em breve. Mas que seja, infelizmente os tomadores de decisão são tão hipócritas quanto intransigentes e ignorantes. E assim seguimos para o abismo.
Quero fazer um retrospecto e uma avaliação geral do que vimos do Glorioso até agora. Vale dizer que, desde o retorno, houve uma evolução consistente no padrão de jogo da equipe. Nem sempre performando tecnicamente bem, mas jogando sempre de forma organizada e reduzindo as fragilidades defensivas. Mérito que deve ser dado ao Autuori, que arrumou a casa como pôde e segue quebrando a cabeça pra tirar o melhor do elenco enxuto com as peças que tem e que chegaram recentemente. Tem muita coisa a destacar, especialmente a AULA que ele deu no Sampaoli. Mas vamos por partes, quero analisar o jogo depois.
Uma decisão claramente notável foi recuar o posicionamento do Honda, que tem atuado como segundo e às vezes primeiro volante, trocando de posição com Caio Alexandre. O Nycolas já deu uma certa analisada nisso, e não vou ficar repetindo muito, mas o destaque é que o próprio Honda alegou em entrevista ter pedido pra jogar mais atrás e estar buscando dar liberdade pro Caio avançar, enxergando no garoto o potencial de chegar mais ao gol e armar o time. Quando poupado do jogo contra o Galo, logo surgiu um frenesi nos mesmos torcedores que achavam que ele não deveria ser escalado dessa forma. Em outras palavras, acho que a questão está bem definida, ele pode atuar ali e deve seguir assim.
OU SERÁ QUE NÃO?
2 contratações e algumas saídas/desfalques recentes do Botafogo vieram colocar a pinta final de dúvida que faltava pra todo mundo sobre o que é a formação ideal pro time. Nós aqui batemos na tecla do 3-5-2, tendo Cícero de líbero e Honda volante, mas aí o Cícero pegou COVID/combo lesão/combo velhice e o Luiz Fernando DO NADA foi emprestado pro Grêmio - creio eu que pra gerar caixa rápido pra pagar os salários atrasados dos funcionários, fora disso não há justificativa - matando a nossa ponta direita com função tática.
Por outro lado, Kalou, Victor Luís e Forster chegaram, enquanto Kanu se firmou como um zagueiro de bom nível e que merece ser titular. Barrandeguy, com toda sua dificuldade, elevou o nível das atuações e Autuori descobriu um senhor ponta/ala/volante em Guilherme Santos, o lateral esquerdo que já ia ser dispensado.
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| Honda e Kalou juntos. Vai dar bom? Forster e Victor Luís também chegaram somando muito ao elenco. Foto: Vitor Silva/Botafogo. Fonte: Uol Esportes. |
Em outras palavras, o time tem real condição de alternar a posição do Honda ou mesmo revezar sua escalação com Bruno Nazário na função de meia. Ou, quem sabe, ESCALAR AMBOS?
Sim, é possível. Forster era cotado para ser zagueiro ou improvisado na lateral, mas atuou com perfeição na volância contra o Galo. Mostrou qualidade absurda de passe e lançamento, com marcação forte e precisa. Era o volantão que todo mundo queria que estivesse do lado do Caio e do Honda. Se o time precisar de mais força de marcação, poderia ser improvisado na lateral dando espaço para Guilherme assumir a vaga no meio.
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| Possível posicionamento defensivo pro time. Forster como um falso ala, fechando o espaço direito na falta de um ponta pra função. |
Com isso, o time teria uma dupla de meias extremamente técnicos, um ponta agudo e decisivo (Luis Henrique) e um bom centro avante a escolher (Raul ou Babi, que tem atuado bem demais). Taticamente, os ataques se concentrariam mais à esquerda, o que obrigaria que um dos volantes ficasse mais ao lado direito. De início, eu imagino o Caio mais centralizado, com o Forster ocupando aquele espaço para evitar os avanços nas costas do Barrandeguy. Seria um 4-1-4-1 na defesa. Ofensivamente, os laterais subiriam com liberdade ao meio, com Honda recuando um pouco mais pra buscar a bola e Nazário encostando no ataque, e os volantes fechando a linha de 4 defensiva.
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Laterais soltos, volantes fechando linha. Time ganha técnica e finalização, sem abdicar de velocidade. Volantes tem alta qualidade de passe.
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Obviamente, essa ideia parte do conceito de que Forster poderia de fato atuar ali pelo lado direito. Nem inserimos a incógnita Kalou - que se estiver bem, é difícil prescindir de sua técnica, mas precisaria de compensação na parte tática pra ele jogar, ainda mais junto com o Honda. Se Forster apenas puder fazer a cabeça de área centralizado, talvez seja o substituto ideal - e titular incontestável - no lugar do Cícero para o 3-5-2 que concebemos antes, com Kalou e Luís Henrique revezando atuações/tempos. O time pode variar bastante usando Guilherme Santos, que pode entrar na volância no lugar do Caio ou do Honda, e também na ponta fechando melhor o espaço sem deixar de oferecer produção ofensiva. Inclusive, continuo achando que deve ser a melhor formação possível esse 3-5-2.
Entretanto, acho que vai ser difícil ver esse time jogar assim. A chegada do Kalou com certeza exerce pressão pra que se encontre um jeito do time usar Honda e Kalou o máximo de tempo possível, aproveitando da possibilidade de fazer 5 substituições. Pensando isso, uma ideia que me ocorreu foi a seguinte:
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| 4-3-3: Time compensa a presença de Honda e Kalou com 2 volantes fortes na marcação. Voltado para contra ataque, explorando Luis Henrique e Kalou (enquanto tiver gás). |
Penso que se ambos precisam jogar, e se vamos precisar disso, o meio campo precisa compensar em marcação. Não da pra pedir pra Kalou e Honda ficarem atrás de lateral. Com isso, avanço Honda para atuar mais próximo à área, fecho um meio marcador e com capacidade de lançamentos longos para explorar contra ataques usando os pontas (Caio como opção caso Guilherme não possa atuar, acho Luís Otávio muito verde ainda). Esse time necessariamente precisaria treinar bastante linha de impedimento defensiva: a ideia é congestionar o meio sem bola, e sair em velocidade. Portanto, zaga e volantes precisam estar próximos dos pontas, impedindo o adversário de construir e atacando rápido. Com a escalação, preservamos algumas peças para o segundo tempo, onde dá pra alternar um pouco o panorama e voltar para o famigerado 3-5-2, trazendo Nazário, Caio e Babi a campo, renovando as energias.
Deixo o resto pro Nycolas palpitar e fazer seus desenhos, que já roubei muito a função dele.
Mas temos que falar da SENHORA AULA de Paulo Autuori, né Maikin?
Todo mundo com cu trancado pra enfrentar o Galo, mesmo sendo nosso eterno freguês. E trancou a ponto de não passar nem elétron quando o nosso professor resolveu mandar a campo 4 atacantes, poupar Honda e barrar meio time. DEU CERTO. O Botafogo deu a bola ao oponente que adora criar, e criou, mas sem objetividade. O volume de jogo do Galo não se traduziu em chances claras, e quando estas apareceram, brilharam Kanu, Marcelo e Gatito.
Por outro lado, o adversário avançou desesperado dando espaços, extremamente bem explorados pelo ataque do Botafogo. Todas as nossas chances levaram perigo. Um pouco mais de sorte e tinha sido 3 a 0 só no primeiro tempo.
No total, o Galo ainda saiu no lucro com lei do ex e juiz mal intencionado tentando nos impedir de levar a vitória. Mas não foi capaz de evitar a freguesia. Derrubamos o líder do campeonato e um dos mais cotados ao título, o que mostra que esse time tem potencial pra fazer frente aos oponentes mais fortes e fazer um bom campeonato, desde que haja dedicação e inteligência por parte de jogadores e técnico. Autuori fez sua parte, e o time também, 3 pontos na conta.
Vamos às notas. Eu costumo dar nota só em jogo que eu vou no estádio, mas isso tá longe de voltar a acontecer. Então todo jogo que eu efetivamente conseguir assistir, vou dar nota por aqui, tendo tempo de postar:
GATITO - 9
Pegou até pensamento e o que não pegou, um chute enviesado de Rabello no fim de jogo, não conta.
BARRANDEGUY - 6,5
Sofreu marcando Keno, mas não comprometeu. Tem evoluído.
MARCELO - 8
Ganhou todas as bolas que disputou. Não ser cogitado na Seleção é má vontade com o Botafogo.
KANU - 8
Cresceu absurdos e já é incontestável na zaga.
DANILO BARCELLOS - 6,5
Não deu bobeira, apesar da limitação técnica. Dentro do que pode oferecer, foi bem.
LUIZ OTÁVIO - 6
Marcou, espanou bola. Mas só também. Valeu pela entrega.
GUILHERME SANTOS - 7,5
Sua história no clube já é linda. Mais uma função executada com precisão. Sofreu um pouco até achar a marcação, mas depois que se encontrou contribuiu com leituras precisas e bons passes e arrancadas.
LUIZ FERNANDO - 7
Tecnicamente questionável como sempre, mas taticamente perfeito e presente. Coroou a correria com um gol de oportunismo. Pode fazer falta no elenco.
LUIZ HENRIQUE - 8
Fez um inferno na defesa atleticana, iniciou as principais jogadas de perigo. Gol foi mais seu que do Luiz Fernando.
MATHEUS BABI - 7
Meio que fora de posição, correu e deu trabalho, ganhou boas disputas e foi essencial pro funcionamento do sistema tático.
PEDRO RAUL - 6,5
Não recebeu muitas bolas, perdeu um gol feito, mas lutou pelo time. Precisa voltar a acertar o pé na forma pra não perder a posição pro Babi.
BRUNO NAZÁRIO - 6,5
Entrou e compôs bem sua função de desafogo. Teve gol mal anulado.
CAIO ALEXANDRE - 7
Entrou bem, soube flutuar entre defesa e ataque quando necessário, fez mais um gol importante.
RAFAEL FORSTER - 7,5
Entrou e tomou conta do jogo. Tem tudo pra ser titular numa posição que pode ser a solução pro time ter mais criatividade e liberdade.
RHUAN - 6
Teve pouco tempo pra atuar, mas não foi mal.
FERNANDO - 6
Surpreendentemente, não foi mal.
PAULO AUTUORI - 10
Deixou todo mundo desesperado com a escalação. O resultado foi um jogo totalmente controlado pela sua estratégia, com cada movimento bem pensado. Acertou nas mudanças e não teve medo de mexer, como em outras partidas. Fez por onde relembrar que ninguém é campeão de tudo como ele é à toa.
Amanhã tem jogo decisivo contra o Flamengo. Eles não vêm tão bem, a gente tá indo melhor que o esperado. Ou seja, favoritismo que tecnicamente já era deles foi totalmente pra eles agora, pela lei do antecedente de clássicos (quem vem bem empaca e quem vai mal acha sorte). Mas que fique o favoritismo pro lado de lá mesmo. É sempre bom vencer sendo o underdog.
Saudações alvinegras!