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sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Botafogo e Fluminense: Os únicos clubes que orgulharam suas torcidas no quesito pandemia

Olá a todos os cornetinhas que estivessem ou não com saudade. Venho no embalo da chegada do nosso parceiro Nycolas - botafoguense doente como eu, corneta como eu, e mais metido a analista do que eu - pra retomar o hábito de tentar destrinchar opiniões medianamente embasadas e muito inflamadas sobre o futebol na perspectiva do torcedor do Botafogo

E antes de voltar a falar do futebol em si, eu preciso fazer uma pausa pra falar sobre o assunto que vai continuar norteando as discussões futebolísticas por muito tempo - assim como em toda e qualquer discussão: a pandemia de COVID-19 no mundo, e especificamente seus efeitos no Brasil. 

Pra começar: se você é bolsonarista, negacionista, maluco, qualquer dessas merdas que nega a gravidade do que está na sua frente por achismo, VAI TOMAR NO CU.  Passa fora. Ninguém te quer por aqui, abraço e fique longe dos outros para bem da saúde pública. Se até agora a ficha da merda que tu fez e está fazendo não caiu, nem quando tu pegar essa desgraça de doença vai cair.

Enfim, dito isso, vamos recapitular um pouco. Já havia sinais, desde o começo de março, que o país provavelmente sofreria alguma espécie de quarentena ou eventualmente lockdown em função da confirmação de casos de COVID no nosso território, e transmissão doméstica na sequência. Logo, era esperadíssimo que o futebol, como todos os outros tipos de eventos aglomerantes e de contato físico, iria parar. 

O problema é que, como todos sabem, as principais autoridades do país, somados a uma elite tosca e sem alma, não apenas negaram a gravidade da situação como fizeram de todo o possível para impedir que as medidas sanitárias cabíveis fossem tomadas, bem como incentivaram a população a adotar a postura menos recomendada possível numa pandemia: tocar a vida como se tudo estivesse normal e nada que os cientistas receitam funcionasse. O resultado é que não apenas a pandemia jamais esteve sob controle no país, como isso implicou no alongamento de uma quarentena meia bomba, mal feita, que em outros termos e posturas poderia ter sido infinitamente mais curta. 

O alongamento dessa quarentena representou o maior risco de aperto financeiro para os negócios - reforçando ainda mais a pressão das elites, embora estas pouco sofram com isso - e enlouquecimento geral da população em algum grau (se você não ficou meio surtado nesses meses em casa, você é um robô ou uma pessoa muito falsa e eu quero distância de ti). Para o futebol, que parou no meio dos estaduais, isso significava uma pressão enorme sobre os cofres dos clubes pequenos. Maior ainda se pensarmos que o retorno com certeza não teria público - mas cabe lembrar que a prefeitura do Rio chegou a cogitar a insanidade de liberar o retorno do público ainda em julho. 

E bom, sejamos francos, aperto financeiro é um motivo plausível pra você ficar ansioso pelo retorno. Entretanto, ao invés dos clubes se juntarem pra cobrar as entidades que poderiam suprir apoio nesse momento de necessidade - no Carioca, a FERJ - o que houve foi um apelo às autoridades para apressar um retorno de qualquer jeito. O caso do Carioca é especialmente emblemático: o Maracanã deveria sediar jogos com um hospital improvisado instalado nas imediações? 

Já havia outras polêmicas rodando o campeonato antes disso. O Flamengo tinha conseguido a proeza de jogar todos os jogos - mandante ou visitante - no Maraca. Corrigirei a frase: não foi nem o Flamengo que propôs, mas os pequenos e a FERJ que arranjaram uma venda de mando de campo em massa, forçada, pra lucrar em cima da torcida rubro-negra. O Fla não é bobo e aceitou. Mas o enviesamento esportivo que isso tem é criminoso e evidente. Flamengo foi o único dos grandes que não precisou se submeter a pegar ônibus pra estrada esburacada, jogar em estádio mal cuidado e grama enlameada até o talo. Ninguém foi punido, nenhuma reclamação oficial foi feita. 

Some isso ao elitismo e bolsonarismo assumidos da atual diretoria rubro-negra. O Flamengo ativamente pressionou pelo retorno do campeonato às pressas, apostando em um protocolo que talvez só ele pudesse atender com plenitude. Em troca, teve apoio do governo pra aprovar uma MP que favorecesse seu projeto de romper com a Globo. Eu poderia passar horas dizendo coisas sobre essa MP, que tem seus lados positivos e negativos, mas vamos assumir que se por um lado não é bonito esse tipo de politicagem, todo clube faz ou já fez ou fará, então crucificar o urubu por isso é hipocrisia. Entretanto, usar sua imagem em prol de um desserviço social, reforçando a ideia de que a pandemia estava controlada ou que fazia sentido retornar às pressas, pegou muito mal com muitos torcedores flamenguistas. Pra surpresa geral, ninguém menos que o Vasco foi o principal aliado do Flamengo nessa empreitada. Se era olho na MP ou bolsonarismo, difícil dizer. Mas foi o que aconteceu .

Botafogo e Fluminense foram os únicos clubes do Rio ativamente contra a decisão de apressar o retorno. Não só grandes não, únicos clubes mesmo. Os pequenos, como esperado, não cobravam a FERJ para auxílio, mas sim para de fato viabilizar um retorno. A FERJ já é diretamente comandada por ex-dirigentes de clubes menores, que ainda se infiltram na política dos mesmos e manipulam os bastidores. O resultado era um só: Botafogo e Fluminense seriam voto vencido. 

Apesar desse fato obviamente ter se consumado, ambos os clubes protestaram o máximo possível e mesmo judicializaram a questão: havia respaldo nas orientações das autoridades sanitárias em não retornar e portanto não havia porquê treinar, então se seriam forçados a retornar que houvesse mais tempo até as partidas. Isso não durou muito tempo e gerou situações toscas, como a FERJ anunciar que houve acordo para retorno de todos os clubes - sem assinaturas de Botafogo e Fluminense - ser desmentida e armar um pé de guerra. Paulo Autuori, técnico do Fogão, soltou poucas e boas pra cima dos cartolas safados na imprensa, sendo posteriormente censurado e suspenso de partidas. O Botafogo respondeu e foi ridiculamente atacado numa nota pífia e descarada do Bangu, que nada tinha com a conversa: obviamente quem mandou escrever foi a FERJ.

Autuori revoltado: Experiente treinador soltou o verbo pra cima dos cartolas da FERJ, e foi suspenso pelos asseclas da mesma no TJD. Foto: Vitor Silva/Botafogo. Fonte: FogãoNet.com

A coisa não parou por aí: no tão famigerado retorno, Botafogo - que levou a campo no retorno e nas partidas seguintes que teve no campeonato uma camisa homenageando os profissionais de saúde lutando contra o COVID e uma homenagem ao Black Lives Matters, além de críticas ao retorno em si - e Fluminense passaram a ser perseguidos também FINANCEIRAMENTE pela FERJ. O ataque foi sem pudor: cobrando até 10 vezes mais pelos custos de realizar a partida aos dois clubes em comparação à Flamengo e Vasco. 
Os clubes protestaram com faixas em conjunto no duelo que fizeram entre si pelas semifinais, posteriormente. 

Protesto inicial do Botafogo no fatídico retorno. Camisas pretas especiais com homenagens aos profissionais de saúde e o BLM. Fonte: Hora do Povo. 


Aí você vai questionar: "Po, maneiro, mas e daí? Voltou do mesmo jeito e agora não tá protestando pro Brasileiro"
A questão é que ambos os clubes, em nenhum momento, usaram de sua imagem de forma total e absolutamente nebulosa e cruel, nenhum deles tentou atropelar nada. Botafogo e Fluminense tentaram até o fim negociar termos mais racionais para pensar o retorno, e foram silenciados pela FERJ, com apoio de Flamengo e Vasco. Não somente, foram vítimas de uma tentativa patética de extorsão. 
Qualquer juiz com a mão na consciência revoga as cobranças feitas pela FERJ. O difícil é achar um que não seja maracutaia com a FERJ ou que seja capaz de silenciar seu clubismo. 

Mais do que só protestar por um retorno sem pé nem cabeça: Botafogo e Fluminense foram os únicos que pareceram perceber a situação do país para a sequência do futebol. A pressa de Flamengo e Vasco em retornar resultou em SEMANAS parados esperando o retorno do Brasileirão, que agora novamente ameaça parar com os números de casos de COVID disparando entre clubes - e o péssimo protocolo CBF provando-se inútil como esperado. Se o Vasco até agora não sentiu esse peso da falta de ritmo, o Flamengo com certeza sentiu e os desempenhos refletem isso. 

E vamos pensar sem má fé aqui né pessoal: Botafogo e Fluminense eram voto vencido DE NOVO  no Brasileirão, mesmo que teimassem. E a CBF consegue ser pior que a FERJ. Não havia mais o que fazer a não ser jogar, ainda que contrariado. O que importa, e o que esse texto tenta refletir, é que o recado foi dado e as torcidas pegaram. 

Ao menos eu, honestamente, me senti extremamente orgulhoso do Botafogo e sua postura mais humanitária. O time tem um porrão de problema pra resolver, nós torcedores cobramos todo santo dia que arrumem a situação de salários atrasados, especialmente pros funcionários. Mas negar que o clube deu à cara a tapa e não pegou carona no negacionismo pandêmico é ridículo. A postura foi e deve ser exaltada e lembrada sempre. RESPEITEM NOSSA HISTÓRIA!

Protesto conjunto de Bota e Flu contra a perseguição da FERJ. Foto: Gilvan de Souza/Agência Estado. Fonte: Globoesporte

A gente tava tão certo nessa conversa toda que cá estamos com o Brasileiro a no máximo poucas semanas de nova suspensão. A cereja do bolo no Carioca foi que no fim FERJ e Flamengo romperam, os clubes pequenos que foram na ideia deles se lascaram completamente com o risco da Globo não patrocinar mais o Carioca - se fecharem é merecido, não tem tradição que resista à pequeneza e mesquinharia dessas famílias de cartolas - o Flamengo tentou atropelar a própria ideia só pra não aceitar o direito do Fluminense de narrar partida com clubismo como eles fizeram, enfim. Podemos ter 20 mil problemas, mas ser babaca e ser orgulhoso de ser babaca não tá no nosso repertório. 

Aos amigos flamenguistas e vascaínos que se sentirem ofendidos, não estou atacando as torcidas nem o clube como existência, mas especificamente as diretorias e suas posturas tóxicas. O Flamengo mesmo usou de seu poderio financeiro pra tentar distribuir kits de higienização pra população - até onde sei Botafogo e Flu também fizeram - pra não ficar tão feio na fita. A questão mesmo é: vocês sentiram um pingo de orgulho assistindo essa história toda?

Eu sei o seguinte: Botafogo contratou Honda e Kalou a preço de banana, sem pagar um centavo em transferência e pagando pra eles juntos o que pagaria num Diego Souza. Tudo isso tomando penhora na cabeça todo santo dia, se virando pra tirar um centavo pra pagar meio salário atrasado. E no meio dessa pandemia, com perda de receitas. Amigo, papo reto: se o Botafogo sobreviveu desse jeito e ainda formou o elenco que formou, bom e barato assim, eu tenho certeza absoluta que vai pagar os funcionários, vai dar uma ajeitada na casa e ainda vai pagar o advogado do Fluminense pra enrabar a FERJ toda até o osso. Falem o que quiserem, vocês não podem reescrever a história. E ela cobra.

Se você ainda duvida de tudo que eu disse, leia por si próprio os capítulos toscos dessa bagaça:


Saudações alvinegras! E tricolores, também!

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