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segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Neymar é o "1" que o Zagallo sempre sonhou

Provavelmente você chegou nesse texto e tá se perguntando que caralhos é esse título. Que porra é essa de "1" que o Zagallo sempre sonhou? Neymar agora é goleiro? Zagallo queria goleiro linha? Tá doidão? Calma. Vou explicar tudinho pra você.

Resolvi escrever (com atraso) esse texto após ter visto a partida das quartas da UEFA Champions League entre PSG x Atalanta, realizada em Lisboa, na última quarta (12). Esse jogo me chamou muito a atenção o posicionamento em campo e a postura do Neymar na partida. Confesso que não sou de acompanhar o futebol francês e não vejo com tanta frequência o PSG jogar, até mesmo na Champions. Apesar de já ter ouvido falar que o Neymar vinha jogando em uma posição diferente do que estava acostumado com o Thomas Tuchel, ter visto essa partida me surpreendeu.

Neymar foi o homem do jogo contra a Atalanta, na última quarta (12)

Em tempos de Santos, Barcelona, seleção brasileira e até mesmo nas primeiras temporadas de PSG, Neymar se caracterizou como um ponta esquerda muito habilidoso, que tinha como principais características o drible, a velocidade e o grande poder de finalização. Como diria nosso grandioso técnico Tite, Neymar era o "jogador terminal". Ele decidia partidas recebendo a bola, driblando em altíssima velocidade e finalizando de maneira certeira. Costumava ser um dos artilheiros e jogadores mais decisivos da equipe que estivesse. 

Pois bem, Neymar continua sendo isso tudo. Só que agora com um detalhe: além de tudo isso que ele já tem de qualidade, ele é o principal construtor de jogadas do time. Hoje, o camisa 10 da seleção e do PSG é de fato um camisa 10. Joga mais centralizado (não tanto, mas mais no meio do que na esquerda), vindo de trás, organizando as ações ofensivas da equipe francesa e também finalizando quando tem a oportunidade. Neymar agora é o cérebro do PSG e toda jogada de ataque precisa passar por ele.

Ineficiência de Sarabia e Icardi obrigaram Neymar a ocupar o meio e a esquerda para que o PSG fosse minimamente agressivo

Isso tudo ficou bem visível no jogo contra a Atalanta. Na primeira etapa, era nítido que o PSG estava fragilizado e sentiu os desfalques de Di Maria, Kurzawa e Verratti. Além disso, Mbappé não podia jogar os 90 minutos e iniciou no banco de reservas. Dessa forma, Neymar puxou pra ele toda a responsabilidade ofensiva da equipe e obrigatoriamente qualquer lance de ataque francês passava pelos pés do brasileiro.

E mesmo após o gol da equipe italiana, o adulto Ney não se escondeu e persistiu em busca do gol de empate. Só que não contava com um Sarabia pouco efetivo e um Icardi muito mal na partida. Ele era obrigado a ocupar o corredor interno do campo e também o lado esquerdo, pois o Sarabia não tava dando conta. E mesmo quando Neymar conseguia fazer tudo certinho, pecou nas finalizações. Era um dia difícil.

Substituições serviram como desafogo para Neymar jogar mais centralizado e tivesse mais opções de passe

A situação só foi melhorar com a entrada de Mbappé, Choupo-Moting e Draxler. Mbappé jogava ocupou o lado esquerdo, Draxler o direito e Choupo-Moting virou uma referência na área (coisa que o Icardi não conseguiu fazer). Dessa forma, Neymar não só ganhou companhia para dividir a responsabilidade como passou a jogar pelo meio e de maneira bem mais livre para organizar o ataque. E foi assim que participou dos dois gols que sacramentaram a vitória francesa — em um chute lascado que sobrou para Marquinhos, e com um passe milimétrico para Mbappé encontrar Choupo-Moting sem marcação na área.

Neymar jogou como um autentico camisa 10 que muito se fala aqui no Brasil. Mais ainda, se tornou um jogador ainda mais participativo, mais decisivo e melhor.

"Mas o que que o Zagallo tem haver com isso, Nycolas? E que papo é esse de '1'?"

Vamos lá. Em agosto de 1994, pouco após o quarto título mundial do Brasil nos EUA, Zagallo foi anunciado como técnico da seleção para a Copa de 1998, na França. Zagallo assumia com alguma desconfiança por conta de que o entendimento da época era que ele seria um técnico retranqueiro. A crítica foi ainda maior devido ao fato de que muita gente criticou a maneira que Carlos Alberto Parreira conquistou a Copa de 1994, com um futebol mais pragmático — que na época foi encarado como "futebol feio". Apesar do título, o brasileiro não queria mais isso.

E qual foi a saída que Zagallo encontrou para dar a resposta à todos aqueles que o chamavam de retranqueiro? Buscar um esquema que valorizasse as qualidades individuais dos principais talentos do país. Para isso, apostou num não usual 4-3-1-2. Um esquema que teria uma linha de três volantes, em que dois deles seriam responsáveis pela dinâmica da equipe (os dois motores), e um camisa 10 que tivesse toda a capacidade criativa que o time precisava. Esse camisa 10 era o "1" do 4-3-1-2, ou como o próprio velho lobo dizia: "o 1 do Zagallo". Tal jogador seria o símbolo de uma seleção talentosa, sendo um jogador talentoso, cerebral e decisivo.

Dificuldade para encontrar o jogador ideal e desequilíbrio defensivo fizeram Zagallo abandonar o 4-3-1-2 e ir para a Copa no 4-2-2-2

Zagallo testou uma porção de jogadores nessa função. Juninho, Zinho, Giovanni, Leonardo e até Denílson. Nenhum destes correspondeu. O último testado foi Rivaldo, que também não rendeu o esperado. De acordo com Ubira Leal, comentarista da ESPN e YouTuber, o maior problema é que cada jogador testado tinha um jeito completamente diferente de se jogar e isso dificultou muito o entendimento da função que o Zagallo queria. Já para Leonardo Miranda, do Painel Tático do GE, essa função era um problema porque obrigava o meia a voltar demais para buscar o jogo, o deixando longe da área, e também forçava os atacantes a saírem da área, os tirando da zona mais perigosa. Além disso, Zagallo percebeu que a função deixou o time mais exposto defensivamente e trouxe poucos benefícios ofensivos.

No entanto, o que a gente viu do Neymar em PSG x Atalanta era exatamente o que Zagallo sempre buscou: um jogador no meio que vinha buscar o jogo, que participava lá na frente, se movimentasse com bastante liberdade, organizasse o time e de quebra ainda decidisse os jogos. Neymar entregou tudo isso.

Neymar tinha tudo para ser "o 1 do Zagallo". Se o Zagallo não fosse teimoso, poderia até encaixar o Romário nesse time.

Em um esforço para tentar escalá-lo na seleção de 98, Neymar seria esse meia cerebral que Zagallo precisava. Além disso, contaria com o auxílio generoso de Leonardo e Dunga no meio, que facilitaria mais ainda o trabalho dele. Ora seria um jogador de distribuição, ora partiria para a jogada individual, ora tentaria o passe em profundidade, ora arrancaria para tentar uma jogada em direção ao gol... São infinitas as possibilidades que o Neymar oferece hoje e poderia oferecer para a seleção de 98, caso tivesse nascido umas décadas antes.

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