Olá! Tudo bem? Ou deveria dizer "こんにちは"? Já estava no meu planejamento escrever sobre este assunto, mas agora mais do que nunca virou necessidade: precisamos falar sobre Keisuke Honda (本田圭佑).

Honda chegou ao Botafogo com um dos principais nomes da equipe para 2020 (Foto: Vítor Silva/Botafogo)
O meia japonês chegou ao Botafogo no início de 2020 com toda a pompa, com direito à recepção da torcida no Aeroporto Internacional do Galeão e apresentação no Estádio Nilton Santos, e logo criou-se a expectativa de que ele se tornasse o grande craque daquele elenco alvinegro. Assim que houve o anúncio da contratação, muitos já resgataram da memória aquele bom jogador de tempos de CSKA Moscow e da seleção japonesa (alguns até recordam de boas partidas pelo Milan, apesar da passagem dele ter sido discreta por lá), e já projetavam que ele se tornasse a esperança de gols do alvinegro. Pois bem, já se passaram algumas partidas e o torcedor parece um pouco frustrado com suas expectativas.
Honda tem atuado constantemente como volante, exercendo uma função tática bem diferente da que muitos esperavam que ele fosse fazer. Não só botafoguenses, mas também torcedores de outros clubes e até analistas esperavam que Honda tivesse um papel semelhante ao que o Clarence Seedorf teve entre 2012 e 2013, quando o surinamês (sim, ele nasceu no Suriname) foi um camisa 10 no sentido literal da equipe, organizando o ataque e fazendo muitos gols. Honda não tem feito isso, pelo contrário, tem jogado bem mais recuado até do que estava acostumado a fazer.
E com isso, Honda se tornou um jogador muito mais de transição do que de fato um jogador de apoio ao ataque. Em muitos momentos reveza com Caio Alexandre a execução da saída de bola, a proteção do sistema defensivo, e tem ido com muito mais raridade à frente para buscar uma jogada mais aguda ou uma finalização. E dessa forma, Honda fica bem menos exposto aos holofotes do que outros nomes como Bruno Nazário, Pedro Raúl, Luís Henrique, Matheus Babi e, claro, Salomon Kalou.

Comparações entre Honda e Seedorf são quase inevitáveis para torcedores e analistas (Foto: Wagner Meier/AGIF)
Por jogar de uma maneira "mais discreta", Honda já começa a receber críticas da própria torcida, que já começa a tratar o japonês como uma das grandes decepções da temporada e começarem a falar que ele "não joga nada". Mas as críticas são justas? Elas tem fundamento? Vamos tentar analisar em alguns pontos.
Posicionamento
O primeiro, e mais fundamental para essa análise, é o posicionamento. Como já disse, Honda tá jogando de volante. Uma das maiores críticas ao técnico Paulo Autuori é que ele "estaria inventando o Honda de volante", porque em tese o jogador é um meia ofensivo e que escalar ele recuado não faz o menor sentido. Será?
Honda de fato sempre foi um jogador de chegada. No auge de sua carreira jogava como um meia centralizado ou um meia aberto pela direita, bastante agudo e que gostava bastante de finalizar. Tinha uma certa velocidade e fôlego que o ajudava a executar essa função. No entanto, os anos foram se passando e Honda foi perdendo essa velocidade e capacidade física para ficar correndo o tempo inteiro, e com isso foi recuando nas funções do meio campo. Ele, que no Pachuca-MEX teve momentos que era até mesmo um atacante, quando chegou no Melbourne Victory-AUS começou a jogar em uma segunda linha de meio campo, atuando muitas vezes como segundo ou terceiro volante dependendo da escalação. Ao chegar no Vitesse-HOL, foi de fato um terceiro homem de meio campo e claramente adotou um papel de construção vindo de trás. Ou seja, há pelo menos dois anos o japonês vêm se moldando para jogar de volante.
Mas por que isso? Bem, há alguns motivos para essa mudança. O primeiro deles eu já citei, que é a questão física. Honda não é mais um jogador ágil como em outros tempos. Ele não tem mais a disposição e velocidade de ficar fazendo movimento de ir e voltar que a posição dele iria exigir, e isso iria fazer dele uma peça a menos na recomposição defensiva, o que hoje em dia é muito valioso. Em contrapartida, o japa aprimorou sua técnica e refinou o seu passe e a visão de jogo. Jogando mais atrás, Honda se cansa menos e compromete menos defensivamente.
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| Kubo é um dos principais talentos da seleção olímpica (Foto: Nelson Almeida/AFP) |
Outro motivo está ligado ao desejo do jogador em disputar as Olimpíadas de Tokyo. Se despedir da seleção japonesa jogando em casa é a sua grande motivação. E hoje, na seleção olímpica japonesa há uma das maiores promessas do futebol do país: Takefusa Kubo, o jovem meia/ponta de 19 anos que joga no Villarreal, emprestado pelo Real Madrid. Honda entende que disputar posição com Kubo é maluquice e ele não tem a menor chance. Além disso, ele entende que se jogar avançado, corre o risco de atrapalhar mais do que ajudar a seleção. Então, para o seu bem e para o bem da seleção, decidiu recuar o posicionamento, onde a concorrência por vagas é menor, para ser mais útil aos jovens japoneses.
Resumidamente, Honda de volante não é invenção de Autuori.
Função
Atuando mais recuado, Honda precisa fazer uma função de organização do meio campo e de saída de bola. Como o japa tem bom passe e boa visão de jogo, a transição ofensiva com ele fica muito mais qualificada do que seria se o Botafogo optasse por um volante de contenção. Uma coisa é você fazer a transição com um jogador estilo Val, outra é fazer isso com o Honda. É muito mais fácil.
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| Função de Honda hoje é parecida com a de Renato entre 2011 e 2013 (Foto: AGIF) |
Logicamente, o meio campo com Honda fica com menos poder de marcação, embora seja o líder de desarmes da equipe (já falo sobre isso mais adiante), e Autuori precisa compensar isso de alguma maneira. Na partida contra o Corinthians, o treinador alvinegro escalou Rafael Forster como um líbero, com momentos em que alternava entre zagueiro e outros como primeiro volante. Isso permitiu que tanto Honda quanto Caio Alexandre ficassem menos sobrecarregados com a marcação e pudessem ter mais liberdade para trabalhar a bola mais na frente. Em outras partidas, não houve essa compensação e os dois volantes precisaram guardar mais a posição para não comprometer o meio de campo.
O jeito que Honda vem jogando se assemelha muito a o que Renato fazia no Botafogo entre 2011 e 2013, como um legítimo camisa 8, inclusive com números parecidos ao do japonês e tratado por torcedores e pela imprensa como um jogador refinado e que "jogava de terno". A diferença agora é que Honda não tem a companhia de um Marcelo Mattos (que não era bom de bola, mas dava a consistência defensiva que o Renato precisava para atuar um pouco mais solto) e as pessoas têm menos paciência com o japonês por ter um pouco mais de grife internacional.
Desempenho
Agora eu começo a dar meus pitacos. Tendo em vista que a função do Honda para o Botafogo é completamente diferente da dele para o CSKA ou para o Milan, ele está jogando mal? Eu não acho e que a afirmação de que ele não está jogando nada é um exagero sem tamanho.
Honda é o melhor e o principal passador do Botafogo no Brasileirão. Praticamente toda jogada passa pelo pé dele. Ele pode não originar toda jogada de ataque do time, mas quase toda bola em posse do Botafogo passa por ele. De acordo com o site SofaScore, Honda é segundo jogador do Botafogo que mais dá toques na bola por partida — média de 61,2 —, só perdendo para Victor Luís — média de 72,5. Além disso, o japonês tem uma média de 88% de acerto de passes, perdendo apenas para os zagueiros Kanu e Marcelo Benevenuto, que tem mais de 90% de média.
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| O japonês hoje é o maior ladrão de bolas do alvinegro (Foto: Rodrigo Coca/Agência Corinthians) |
Honda também é o líder de desarmes da equipe no Brasileirão, segundo o site Infogol. É verdade que o japonês não tem o maior índice de acertos (54%), mas o jogador já contabiliza 13 desarmes em 24 tentativas. É disparado o jogador que mais tenta e o que contabiliza mais desarmes.
O jogador também é um dos que mais dá passes decisivos por partida — média de 1,8 — e só perde mais uma vez para Victor Luís — média de 2,0. O terceiro colocado da lista é Bruno Nazário — média de 1,6.
Honda de fato tem finalizado pouco e participado menos das ações ofensivas. Até o momento contabiliza um gol de pênalti, nenhuma assistência e tem uma média de uma finalização por jogo. No entanto, reforço mais uma vez, ele tem atuado mais afastado do gol e muitas vezes é forçado a segurar posição para não comprometer a equipe defensivamente. No jogo em que o jogador teve liberdade para participar mais, o japonês foi mais a frente e levou muito mais perigo.
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| Ter o Honda mais recuado facilita demais a transição ofensiva (Foto: Vítor Silva/Botafogo) |
Concordo com muitos torcedores do Botafogo que afirmam que Honda segurando posição é um desperdício e que ele precisa chegar mais no ataque para ajudar o time a levar mais perigo ao adversário. No entanto, eu discordo totalmente de que ele esteja jogando mal de volante, pois os números comprovam que o papel que lhe cabe está sendo bem executado, e que para ele ser mais perigoso ele precisaria jogar como um camisa 10 do time. Não, ele como volante pode ser um jogador perigoso, como foi contra o Corinthians. O que o Autuori precisa é ajustar uma formação em que o Honda possa ter essa liberdade no meio junto com Caio Alexandre. Eu muitas vezes defendi aqui o esquema com 3 zagueiros e contra o Corinthians o time jogou num 3-4-3. Mas isso pode ser feito num 4-1-4-1, ou 4-1-3-2, ou 4-1-2-3, ou até mesmo o 4-1-2-1-2. Qual desenho vai ser usado pouco importa. O que importa é que com um Honda mais solto, a possibilidade do Botafogo brilhar é maior.
É isso, meus amigos! じゃまた!




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