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segunda-feira, 28 de setembro de 2020

EmpataFogo de Futebol e Desespero: O que fazer?

Salve cornetas, mais um textão pra falar da situação do nosso Botafogo, e obviamente, a coisa não anda muito bonita. 

Junto do Palmeiras, o nosso Glorioso está se consolidando como o time do empate do campeonato brasileiro. Já são 8 empates, e apenas uma vitória, aquela onde o time deu um show coletivo e Autuori um nó tático no Galo de Sampaoli. 

De lá pra cá, além dos resultados frustrantes, a maneira com que tem ocorrido: em jogos relativamente controlados, com o Botafogo sempre saindo na frente e levando um empate em lances bobos, além de uma visível limitação do time em buscar o resultado após sofrer o gol. Talvez as únicas exceções à regra sejam as derrotas para Inter e Vasco (no brasileiro), onde ainda teve os agravantes de intervenções errôneas ou sem critério do VAR - que ainda resultaram em uma suspensão do Gatito que está pra acontecer, e se tivermos sorte pode ser que pegue parte do período dele na seleção paraguaia - e, novamente, gols bobos. 

Os resultados que sem dúvida chamam a atenção geral são contra Flamengo, Athletico-PR, Coritiba e recentemente o Atlético-GO. Contra o Fla, o time fez o gol aos 50 e conseguiu a proeza de cometer um pênalti bobo aos 51 (apesar da falta de critério do VAR, a marcação foi acertada). Quase tomamos uma virada ridícula contra o Pathetico, simplesmente aceitando a pressão final, tomando gol e cometendo pênalti na sequência. Contra o Coxa faltou vontade, e contra o Dragão o time morreu taticamente num dia ruim de Autuori - e pior de parte do elenco. 

Seriam 4 vitórias a mais e estaríamos disputando posição pra quem sabe beliscar um G4 no fim de temporada. O quê exatamente está dando errado? É difícil isolar um fator, parece mais uma convulsão de vários. Resolvi fazer uma análise geral, separando em 2 grandes grupos: o que está tendo gerando problemas, e o que existe de positivo que pode solucionar. 


SITUAÇÕES PROBLEMA:


1 - A MÁ GESTÃO DO ELENCO PELA DIRETORIA

Esse é talvez o maior problema, que já era anunciado de tempos e que agravou absurdamente nas últimas semanas. Desde o início da temporada, o Botafogo sabia que precisava ir ao mercado e compor um time praticamente do zero. A espinha dorsal ficou ótima com as novas peças: Victor Luiz, Forster, Rentería, Honda, Nazário, Kalou, Babi e quiçá, Raul também, somando a um time que tinha uma defesa forte em Gatito, Benevenuto e Kanu, e boas peças de velocidade nos lados. 

Luis Henrique é anunciado no OM. Clipe valoriza tradição alvinegra. Saída deixa vácuo técnico e tático no time. Fonte: FOGÃONet, Youtube. 

Aí começou o rame rame. Luiz Fernando, peça carimbada do time, é emprestado ao Grêmio. Pra repor, ninguém. Luiz Henrique, nossa maior joia recente da base, também é vendido. Quem vai vir? Rhuan é o único jogador do time com o perfil de velocidade necessário para acelerar o time, e isso pesa muito mais sabendo que gostamos de usar o contra-ataque. Além disso, o garoto oscila. Kalou já não tem tanta velocidade, jogando mais enfiado apostando no 1X1. Davi Araújo, que até tem mostrado alguma desenvoltura, também não faz o perfil velocista.

Some isso com as contratações TENEBROSAS para a lateral direita. Marcinho é carta fora do baralho, praticamente forçando rompimento com o clube enquanto se cura da lesão. Barrandeguy tem pegada na marcação, mas é fraquíssimo no ataque. Kevin é o oposto: chega no ataque, mas é burro e não sabe tomar decisão na hora de marcar, correndo errado e deixando espaços que os atacantes adversários aproveitam. Inclusive, não entendo porque parte da torcida prefere o garoto: erra com frequência lances bobos, e foi o responsável pelo patético primeiro gol que tomamos do Vasco no Brasileiro, dominando mal uma bola que iria sair e dando na fogueira pro Benevenuto fazer milagre. 

O golpe final nesse ponto é algo que até outro dia era positivo, mas se provou um erro: o afastamento de Cícero. Se a lentidão do volante seria um problema para um time que já possui jogadores lentos no meio, fica evidente que mantê-lo na dispensa SENDO PAGO e sem sair do clube é problemático, especialmente quando nessas situações e com o rodízio inevitável que o campeonato está forçando (calendário bagunçado da COVID) somos obrigados a ter Luiz Otávio como única opção de meio-campo no banco. 


2 - O RACHA ENTRE TORCIDA X AUTUORI

Esse é um ponto que vejo menos como causa, porém mais como um grande agravante. Autuori está longe de seus dias glórios, e ele sabe disso. As decisões do treinador oscilam bastante, entre a mexida que garante o domínio do jogo e a queimada de jogador. 

Some isso com  uma torcida afoita, que não quer nem ouvir falar em zona da degola novamente, e os resultados dos jogos, e você tem uma bomba. A relação não melhora nem um pouco quando o treinador relembra que sua passagem é pra abafar o incêndio financeiro do time até a S/A sair  (e se não sair sabe lá Nilton Santos o que será de nós) e portanto ele não se preocupa com críticas, está só de favor. De fato, está, mas precisa assumir que o time não está entregando o esperado nem o que realmente pode, e precisa descobrir uma forma de sacodir o elenco. 

Boa parte da torcida pede a cabeça do treinador. Discordo que seja o momento. Autuori aposentado ainda é melhor que Valentim, Zé Ricardo, Húngaro, Tigrão, dentre tantas outras invenções que tivemos que aturar e que provavelmente são o máximo que conseguiríamos no mercado agora. Autuori parece ter prestígio com o elenco também, e isso pesa bastante quando você lembra que tem 2 jogadores de Copa do Mundo compondo essa equipe. 

Autuori no divã: time performa, mas não vence. Torcida perde a paciência, mas há opções decentes no mercado? Fonte: Égool. Foto: Divulgação/Botafogo.

Não somente, o trabalho do mesmo como dirigente é notadamente elogiado. Se queremos o cara pra esse cargo, demitir ele agora antes de ter as condições pra passar a tocha pode ser piorar a relação com ele em outro cargo - vale lembrar que é ano eleitoral e Autuori pode ser tanto usado como argumento a favor como crítica em campanha. Um candidato oportunista pode prometer aos setores mais enraivecidos da torcida a demissão do técnico/dirigente, se eleger em cima disso e dirigir o clube em causa própria como tantos outros já fizeram. 


3 - A OSCILAÇÃO TÉCNICA/FÍSICA DO TIME

Não é todo jogo que todo mundo vai jogar bem, óbvio. Mas a situação é um pouco mais complicada que isso. 

O calendário, como já destacado, está uma bagunça e mais massacrante do que nunca. Honda e Kalou, que já seriam poupados em determinadas ocasiões, agora se desgastam mais rápido, diminuindo consideravelmente o poder de criação do time em algumas partidas. No caso do Kalou, ainda tem um efeito pior extra: demora ainda mais para completar sua readaptação de tempo de bola e o entrosamento com o time. Guilherme está se recuperando de lesão só agora.

Some isso com a gangorra bizarra de rendimento de jogadores-chave. Forster parece sofrer com a função de líbero: embora vá bem na marcação e nos cortes, seu bom passe não tem sido tão efetivo, o jogador parece estar ainda procurando acertar o posicionamento e com isso tem seu tempo de bola prejudicado. Já errou passes importantes. 

Caio Alexandre e Bruno Nazário vão do céu ao inferno de um jogo pro outro. Saem de performances consistentes e ativas para exibicionismo, apatia e ineficácia. Um pouco mais de regularidade faria com que contribuíssem mais. Não somente, Honda tem se sacrificado pelos dois em campo. Sim, o próprio japonês pediu pra jogar mais recuado, mas uma coisa é ele fechar atrás e subir com eles apoiando, a outra é ele marcar pelos 2 como às vezes acontece e ainda ter que criar!

Pedro Raul, que começou estourando, simplesmente não dá conta mais do recado. Se é baladeiro ou não é, outra conversa, o que importa é se rende. E de momento, por mais que tecnicamente seja mais apurado que Babi, não está rendendo. Inclusive, nos momentos que Autuori tenta usar os dois - seja por opção tática ou por falta de peças - é comum que Raul atrapalhe bastante Babi. 


SITUAÇÕES POSITIVAS:


1 - PADRÃO DE JOGO

Pode jogar bem ou mal, que faz parte, mas o Botafogo de Autuori sabe o que faz com a bola. Fecha bem os espaços, roda a bola com calma quando precisa propor e sabe explorar muito bem o contra-ataque, sendo agudo e objetivo. Isso é algo que não víamos acontecer bem há algum tempo. O último que deu alguma cara de jogo ao time foi Jair (Everest) Ventura, mas com um elenco bem mais fraco no papel. 

Isso inclusive é parte do que faz esses resultados serem surpreendentes. O time pode mais, está bem treinado - ou pelo menos, minimamente treinado, coisa que no Brasil é raro - e tem individualidades fortes em todos os setores. Até a porra do Tite, treinador da Seleção Brasileira, bateu nessa tecla. Diferente do Palmeiras, nós conseguimos inclusive fazer jogos de bom futebol, mesmo sem o resultado. Autuori não é um Diniz da vida, não é marcado por nenhuma sina derrotista e não inventa moda com o que não tem. E, discordando dele em várias mexidas ou escalações, eu tenho que reconhecer - espero que vocês também - que não é justo botar na conta dele falhas individuais dos atletas que nos custaram jogos

Se a diretoria trouxer um BOM atacante de velocidade, jovem, e um BOM lateral direito, é certo que só tendemos a melhorar. Cabe à torcida cobrar essa diretoria pelas contratações. Sobre técnico, se a S/A sair de fato, há algumas opções boas no mercado que seriam acessíveis em caso de termos o mínimo de capital. Roger Machado é um nome que me agrada, mas pra lidar com os mais experientes e os mais estrelinhas meu sonho de consumo hoje é o Rogério Ceni. Ambos tem um estilo de jogo que gosta de atacar e sabem trabalhar elencos técnicos. Mas isso fica pra depois. 


2 - A UNIÃO DA ESPINHA DORSAL DO ELENCO

Tá acontecendo uma coisa muito legal de se ver, que faz algum tempo que não rola: o elenco é majoritariamente unido. Isso rolou em alguns graus em 2017  - apesar do Roger plantando discórdia - e 2010 - graças ao carisma de Joel Santana e Loco Abreu. Mas acho que esse ano em específico tá uma cara melhor. 

Temos Honda e Marcelo Benevenuto extremamente entrosados. O elenco começa a querer falar inglês, fazer um esforço especial pra se entender e comunicar. Parece bobo, mas isso faz uma diferença absurda dentro de campo. Não só pra falar com o Honda ou o Kalou, mas a ideia de realmente querer se entender como pessoas cria uma proximidade importante entre os jogadores. Victor Luiz é extremamente identificado com o clube, assim como Gatito. Kanu se mostra um gigante pra sua idade, e com grande espírito de liderança. Cavalieri virou referência importante pros mais novos. Kalou já colou no Babi, que sempre chama Caio e Nazário para as dancinhas. Rentería já chegou cheio de resenha. 

E o samba do japonês? Entrosamento de Honda com a garotada gerou ambiente alegre e de companheirismo, mesmo na má fase. O craque foi o principal jogador contra o Vasco na Copa do Brasil. Fonte: FOGÃONet. Foto: Reprodução BotafogoTV. 

Enfim, parece bobo, eu repito, mas isso é muito importante. Perdemos muitos campeonatos por ter elenco rachado: aquele Brasileiro de 2013 vocês lembram a vaga na Liberta, mas esqueceram da paçocada do time quando disputava a liderança e tinha tudo pra ser campeão. Seedorf rachou MUITO o elenco enquanto queria idolatria, e muitos esquecem disso.

Já fomos rebaixados tendo esse como um dos fatores. O time de 2014 era uma mistura de salário atrasado com jogador que não queria tocar pro outro pra querer se sagrar salvador e mostrar que era melhor. 

Hoje, o único jogador que eu vejo realmente destoar desse sentimento coletivo bom no clube é o Pedro Raul. E nem por isso quer dizer que ele esteja sem amizades, às vezes é só o jeito mais fechado ou mais estrelinha que aparece mais do que o que ele faz nos bastidores. A impressão que fica é que esse elenco sabe dos próprios erros e não vai deixar a peteca cair. Eu consigo olhar para esse time e ver que há gente tentando, ainda que esbarrando nos próprios erros. Eu consigo ver vontade de se superar. Eu não vi isso em 2014


3 - COPA DO BRASIL

O que nos últimos anos tem sido nossa maior coleção de vergonhas e eliminações imperdoáveis, tem sido até o momento nossa maior fonte de renda no ano. Com boas partidas contra o Vasco, chegamos às oitavas da Copa do Brasil depois de um bom tempo sem conseguir esse feito básico. Isso ajuda no marketing e negociação de patrocínios, além do prêmio em dinheiro que ajuda muito com um elenco de salário bem baixo. 

A questão é que, como mencionado, o Botafogo tem um elenco bem agradável em vários setores, e mata-mata não exige que sejamos sempre brilhantes, mas eficientes. Com um calendário bagunça que está punindo bastante os elencos, e a COVID atacando os times de Libertadores que entram agora, há uma chance real de irmos longe. Título? Não sei. Especialmente se a situação no Brasileiro seguir apertada, seremos obrigados a olhar pro mais urgente. Mas quem sabe uma semifinal? Não é impossível, diria inclusive que a depender do sorteio pode ser o caminho provável. 


Enfim, por hoje é isso. Temos uma sequência importante agora de jogos em casa. Se o time emplacar 2 ou 3 vitórias , respira e ganha confiança pra fazer uma temporada mais tranquila. Nos resta torcer pelo bom desempenho e pressionar a diretoria pela reposição de peças. De momento, não vejo muito sentido em tirar Autuori do comando, mas a situação pode urgir nas próximas rodadas se o time não vencer. 

Saudações alvinegras!

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