Saudações alvinegras! Ou eu deveria dizer "meus alvinegros pêsames"?
Que a situação do Botafogo é caótica em termos financeiros e políticos há muitos anos, isso sempre se soube. As consequências também já nos são conhecidas: dificuldade em montar elencos competitivos e contratar técnicos inteligentes, baixas performances e colocações nos campeonatos que se disputa, ambientes instáveis pelos rachas dos grupos políticos piorando a situação dentro de campo e em outros esportes, afastamento do torcedor e dificuldade de renovar a torcida, pouca exposição de patrocinadores e dificuldade de convencer novos, etc.
A questão é que nos últimos anos, talvez mais precisamente desde o fim da gestão Maurício, as dívidas triplicaram, quintuplicaram, enfim, descaralharam de tamanho. Vimos uma série de performances ridículas ano após ano, partindo da queda pra série B logo de entrada em 2014 com direito a atrasos constantes de salário gerando greve de elenco no processo. Voltamos aos trancos e barrancos, na bola, mas salvo o cada vez mais bizarro e inexplicável "vou se empolguei" de Jair Everest 2016/meados de 2017, são anos seguidos sempre fazendo contas pra não cair, trocando de técnico e projeto entre apostas medíocres e consolidados mais medíocres ainda, e vendendo os poucos jogadores de base que conseguem despontar em meio ao caos a preço de banana.
Na verdade, se contarmos desde 2014 a quantidade de jogadores promissores ou mesmo os mais consolidados que vendemos ou emprestamos pra pagar salário atrasado ou dívida trabalhista, dá a base de um time consideravelmente competitivo: Dória, Fellype Gabriel, Vitinho, Lodeiro, Jadson, João Paulo, Rabello, Jonathan, recentemente o Luís Henrique. Vá lá, até o Ribamar poderia compor elenco hoje em dia. Um pouco mais de equilíbrio nas finanças e poderíamos ter segurado até o Erik se pá.
Desde meados de 2019, a palavra de ordem é a vinda da S/A. Começamos 2020 otimistas, com a promessa de chegada do projeto e a viabilização de temporadas mais tranquilas, com a possibilidade de investir um pouco mais no futebol sem fazer estripulias chegando em breve. Não somente: mesmo economizando pra cacete, montamos um time titular consideravelmente bom. Se não é exatamente tudo o que essa torcida sofrida merecia, pelo menos era mais do que suficiente pra segurar o rojão e gerar engajamento de longo prazo sem passar tanto desespero.
Só que a crise financeira tem piorado cada vez mais. Estamos dependendo do Montenegro, que vive fazendo merda, ser a voz lúcida na diretoria e pagar as contas que o clube não consegue pagar do dia a dia. Futebolisticamente falando, tampouco há projeto. Começamos o ano amarrados no péssimo Valentim, corremos no Autuori de favor. O acordo com o campeão de 95 não era má ideia, mas a demora da S/A se resolver, somado com os resultados péssimos em campo fizeram o treinador entregar o cargo. Qual foi a solução da diretoria? LAZARONI.
Preciso comentar mais? Era óbvio que o Lazaroni tava verde pra ser técnico. Se é que deixará de ser no futuro. A sorte dele era que o elenco parece unido o suficiente pra abraçar quem vier com humildade. O time engatou 2 vitórias, mas segue performando muito mal, e empatou de forma ridícula depois de massacrar o Goiás em casa. A gota d'água foi ontem, uma derrota vexaminosa pro Cuiabá, que vinha com 7 desfalques.
Esse mesmo Cuiabá foi goleado pelo Botafogo de Zé Ricardo por 3 a 0! Fica o comparativo pra ilustrar o quão ruim o time está, mesmo com um elenco visivelmente melhor.
Mas é mais grave do que ser o Lazaroni a solução. É a clara falta de planejamento que a diretoria - e isso inclui TODOS os caras que passaram pela gestão do clube nos últimos 20 anos - tem pra lidar com o clube. Contratações questionáveis, negociações suspeitas, dívidas desnecessárias, falta de projeto e filosofia pro futebol. A esperança da S/A era justamente que essas figuras virassem conselheiros sem poder de decisão, e o Botafogo finalmente pudesse respirar.
Após mais uma vergonha na Copa do Brasil, como já mencionado, foi a vez do Felipe Neto descer o sarrafo no Twitter. Embora boa parte seja emoção do momento e até achismos, expôs-se parte do que era esperado: apesar da pandemia de fato ter atrapalhado o clube, a diretoria é incapaz de tocar o projeto à frente (e há com certeza membros que não o querem) e o clube pode acabar seguindo o caminho da recuperação judicial (que pode resultar em rebaixamento direto à série D).
Apesar do próprio interneteiro ter retratado algumas de suas posições, o que chama atenção é o fato óbvio: não existe essa de Moreira Salles resolverem tudo, como eu mesmo já tinha batido nessa tecla ano passado. Não existe mecenas interessado em comprar todas as dívidas do Botafogo, ao menos não sozinho. E com a diretoria sendo incompetente como é, reduz-se ainda mais o número de interessados em arriscar.
Isso significa que estamos fadados a assistir o fim do Botafogo? Não necessariamente. O time vem aos trancos e barrancos mais graves há quase 10 anos. Pode passar mais alguns anos assim, se isso implicar em melhorias a passo de tartaruga.
O problema é que isso tem prazo de validade. Não somente, os tempos são outros: as cobranças estão mais implacáveis, a FIFA está mais ativa para punir clubes e uma queda para a série B reduziria absurdamente a capacidade do clube de capitalizar o necessário para uma retomada gradual de sua competitividade. É possível de verdade que o Botafogo se condene a não ser mais visto como grande nem pelos mais saudosistas. Virar um América ou Bangu da vida. É possível sim. Se duvida, observe um pouco os exemplos da Portuguesa, e agora o fim de temporada do Cruzeiro vai dizer muito ainda sobre o que acontece com times desajustados financeiramente.
Em suma: pode levar 3, 4 ou 10 anos. Se não forem tomadas medidas concretas de renovação da gestão do Botafogo, não haverá salvação do destino amargo. Isso vai pra muito além de demitir um técnico incompetente - contratado ou promovido por quem jurou que não seria o caso - ou fazer contratações aleatórias de jogadores convenientemente ligados a empresários a quem o clube deve.
Da mesma forma, podem levar os mesmos 3 ou 10 anos pro clube se reerguer à presença dos tempos de glória. A S/A era o atalho salvador pra encurtar essa trajetória e dar alívio aos combalidos cofres. Pode ser que consigamos sem S/A. Mas o fato é: o clube precisa de dinheiro AGORA, e precisa que ele seja ADEQUADAMENTE empregado, o que exige uma gestão inteligente, ou seja, não amadora. Gostaria muito que houvesse um processo de democratização, mas estamos distantes do nível de engajamento e cultura política que a maioria da torcida do Bahia tem, por exemplo.
Seja como for, é mais um ano passando raiva em níveis nada saudáveis, meu cabelo ficando alvinegro sem eu precisar tingir, e mais uma temporada de desespero. Não vou dar nota pra ninguém do jogo não porque mereciam todos zero, no máximo o Honda um 5 porque é o único jogador que tem decência de pedir desculpas quando falha.
E só pra fechar: fui olhar alguns dos nomes soltos no mercado. Só dois são aceitáveis e cabem no orçamento: Larghi e Roger Carvalho. Com muita paciência, talvez o Luxa se ele aceitar ganhar menos. De resto, é tudo projeto série B.
PELO AMOR DE GARRINCHA, TIREM A CAMISA 7 DO RHUAN.
E PELO AMOR DE ZAGALLO, NADA DE VALENTIM.
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